01 novembro 2021

O quão difícil é conversar sobre a morte? Antônio Moreira

A nossa cultura não nos ensinou a falar sobre a morte. E isso nos dificulta no enfrentamento de situações de perda de entes queridos, mesmo sendo essas experiências inevitáveis em nossas vidas. Apesar de sabermos que estamos aqui só de passagem, e que todos nós desencarnaremos um dia, raramente conversamos sobre esse assunto.

Se perguntarmos para alguém qual é o contrário da palavra vida, possivelmente ouviremos que é morte. Mas morte é o contrário de nascimento. E assim, chegamos à conclusão de que não existe o contrário de vida, pois a vida existe sempre. A vida é eterna.


O princípio básico de todas as religiões, é que a vida continua após aquilo que chamamos de morte. A vida não tem fim, pois somos seres eternos, evoluindo sempre. E assim, num processo de crescimento, aprendizagem e transformação permanente, nos aproximamos cada vez mais de Deus.


Outro fator interessante sobre a morte do corpo físico é o fato de que esse acontecimento é muito democrático. Nivela a todos: ricos e pobres, cultos e ignorantes, bons e maus, crentes e descrentes, e nos traz uma percepção de que, no final, somos todos iguais!


Precisamos ampliar a nossa compreensão sobre esse momento de nossas existências, pois a morte é a plenitude de uma vida. Ela encerra um ciclo, no tempo certo. Não no nosso tempo, mas no tempo de Deus. Aliás, somente justificaria pensar que a morte teria sido antes do tempo, se existisse uma única vida. Mas tudo acontece na época  certa, no tempo em que foi planejado, em um momento especial, muito antes da nossa chegada no ventre materno.


É muito comum ouvir das pessoas, sobre o medo de morrer, por não se acharem preparadas ainda para esse momento. E, possivelmente, nunca estaremos preparados, pois sempre teremos pendências a resolver em nossas vidas. Também nos preocupamos e questionamos se uma pessoa que desencarnou estaria bem do lado de lá. E a resposta certa é que sim, muito melhor do que se ainda estivesse aqui, pois a vida verdadeira é no plano espiritual. Em algumas situações  em que uma pessoa se encontrava enferma antes do falecimento, questiona-se se ela estaria doente do outro lado também. Ela  estará se recuperando de forma muito mais rápida, pois agora habita um mundo muito mais evoluído, com um corpo perispiritual muito mais sutil e mais fácil de ser tratado do que a veste física que utilizava tempos atrás.


Outra preocupação que corrói o coração de familiares, acontece nos casos de suicídio. Cabe esclarecer que quem abrevia a própria vida, não quer acabar com a vida, mas com uma dor imensa que tornou-se insuportável. Mas, após perceber que a vida não acaba e ser acolhido no plano espiritual com a amorosidade do Cristo, tudo se transforma. Ninguém é abandonado! E aqueles que passaram por esse processo tão doloroso,  poderão, o mais breve possível, a depender de cada caso, superar a dor de outrora e seguir sua caminhada evolutiva.


Passar pelo processo do luto, todos nós passaremos um dia, nessa vida e/ou em outras. Todavia, a nossa relação com a morte, como a entendemos, como a aceitamos, muda tudo. Ninguém quer passar por esse tipo de dor, isso é certo, mas compreender a vida além dessa encarnação transforma a forma de olhar os fatos. E quando mudamos a forma como olhamos os fatos, os fatos mudam.


Não existe castigo. Aquilo que chamamos de carmas, são necessidades de experienciar dificuldades e dores, para aliviar os sentimentos de culpa por nossos atos infelizes do passado. Assim, após experienciarmos a dor,  e nos desvencilharmos de energias negativas do passado, nos tornaremos mais leves espiritualmente, e poderemos seguir, gratos pela oportunidade, a nossa caminhada rumo a mundos mais elevados.


O significado da palavra reclamar é clamar duas vezesOu seja, é pedir novamente. O Universo e o seu corpo entendem o seu pensamento como a sua vontade. Então, é extremamente necessário que aceitemos as experiências difíceis da vida como elas são. Aconteceu e não tem como mudar essa realidade, mas a vida precisa seguir em frente, apesar da dor.


E para finalizar, se acreditamos que Deus é justo e bom, podemos concluir que não se justifica a tentativa de negociar com Deus, visando não enfrentar dificuldades. Cabe sim, um olhar sincero para dentro de nós, buscando uma compreensão maior e a percepção honesta daquilo que poderia ser transformado para melhor. Aliás, a verdadeira bondade em nossas vidas seria aquela que a fizéssemos sem ser uma obrigação e de forma espontânea. Devemos fazer o bem naturalmente, pois amar o próximo está em nossa essência, nós apenas não nos despertamos para isso ainda.


Antônio Moreira Júnior é terapeuta de Clean Language e PNL


30 outubro 2021

Dores Humanas – um olhar sobre as perdas na Pandemia - Cristiane de Carvalho Neves

Cristiane de Carvalho Neves CRP-09/5022 -

Psicóloga especialista em Terapia Sistêmica Familiar e Intervenções em Luto



Q
uem de nós imaginaria passar por uma pandemia ou por um isolamento social? As nossas famílias enfrentaram algo inusitado e inesperado. Além das diversas perdas, que emocionalmente não devem ser comparadas, as pessoas estiveram consumidas pelo medo devido à alta possibilidade de um ou mais membros se contaminarem, também sentiram medo devido ao agravamento dos sintomas com possibilidade de morte após o contágio do vírus, e o nosso medo foi sendo reforçado diariamente conforme aumentava o número de infectados e mortos em todo o mundo.

A perda é um dos processos mais desorganizadores da vida humana. Não somente a perda de pessoas, mas qualquer processo de mudança de vida pelo fato de implicar o desaparecimento de uma antiga e conhecida condição, com a obrigatória passagem para uma nova e desconhecida fase. Isso descreve exatamente o que passamos. Rotinas bem estabelecidas precisaram ser readequadas às exigências sanitárias com restrições sociais. Com o coronavírus, na condição do isolamento, tudo mudou e repentinamente. Vimos correria aos supermercados e as pessoas desesperadas em busca de álcool em gel 70%, máscaras e outros... Tudo isso, já evidenciando um processo de adaptação à nova realidade que nos estava sendo imposta. Toda aquela realidade que conhecíamos estava sendo desfeita. Cada pessoa foi buscando se reorganizar à sua maneira, de acordo com os seus recursos disponíveis internos e externos, a essa nova condição de sobrevivência. 

Além do mais, Baricca (2008) fala sobre a angústia que nós sentimos quando nos deparamos com a possibilidade de morte. Ela diz que a “angústia de morte significa, portanto, viver a presença imponente de uma ameaça à nossa existência.” [...] “Assim, pensar a própria morte, ou a sua possibilidade, provoca forte sentimento no ser humano, de modo que a angústia desencadeada é transformada, defensivamente, em medos e dificuldades.”

Tivemos uma preocupação com o movimento das nossas famílias durante essa crise que, podemos dizer, ainda atravessamos. A palavra crise na sua etiologia, pressupõe crescimento, oportunidade. Toda crise desestabiliza o que existia e abre uma oportunidade “sagrada” de reinvenção; uma oportunidade para a mudança. Para que a gente possa atravessar uma crise como algo sagrado, a gente precisa se perguntar qual é o meu propósito para hoje? E a família em crise pandêmica pode ser estimulada a enxergar o propósito de reinvenção daquele sistema; repensar o modo de relacionar uns com os outros como uma oportunidade de aproximação e aumentar a intimidade entre os membros da família; corrigir os erros, pedir perdão; propiciar novas formas de interação, o resgate de brincadeiras há tempos deixadas de lado; ou até novas receitas culinárias. 

Considerando os cuidados com as nossas famílias, compreendemos a sua importância como matriz no desenvolvimento biopsicossocial do indivíduo – um sistema de vínculos afetivos por meio do qual se gera e se desenvolve a organização psíquica do indivíduo. Nesse sentido, esperamos que a família seja um lugar de segurança, cuidado e afeto. Esslinger (2008) corrobora com o conceito que Carter e McGoldrick definiram sobre família dizendo que é um “sistema movendo-se através do tempo, com papéis, funções e relacionamentos insubstituíveis. Esse sistema, por sua vez, tem seus ciclos, os quais podem ser facilitadores ou dificultadores na aceitação de mudanças, dentre elas, as perdas”.

Portanto, as famílias estão amedrontadas. O medo é instintivo e foi necessário na preservação enquanto espécie. O medo que desenvolvemos do novo coronavírus é algo natural, impossível de ser evitado. Esse medo tem dois lados: o positivo está em cuidar da vida, em não se colocar em situações de risco. O negativo ocorre quando o medo causa muito sofrimento, quando impede a continuidade da vida. Porque sentir medo nos serve como instinto de sobrevivência, que nos prepara para a luta ou fuga.  Quando isso acontece, somos protegidos. Só não podemos viver o tempo todo assim como um alarme com defeito, pois teremos um desgaste psíquico. 

Nesse momento de tantas perdas, precisamos compreender que cada pessoa lida com rompimentos afetivos à sua maneira. E precisamos saber respeitar o tempo de processo de luto individual. A mente do enlutado, no primeiro momento, está confusa com todo o desmoronar na vida dele. Dependendo do que falamos ao enlutado, podemos ajudar ou ferir ainda mais. Na verdade, quanto menos falar, melhor. Então, um abraço, um olho no olho, e o principal, apenas dizer “estou aqui com você”, já é o suficiente! Frases como “Agora ele já não sofre mais”; “O tempo cura tudo”; “É a vida, todos vamos morrer”; “Olha, que há pessoas que estão pior”; “Você é jovem, pode se casar novamente/ter outro filho”. Essas frases podem ser inadequadas de imediato e machucar ainda mais.


E
ntretanto, podemos dizer “Sinto muito pelo que está passando”; “Nem posso imaginar o que você está passando”; “Você é uma pessoa muito importante pra mim, pode contar comigo”; “Quer falar? Posso te ouvir”. Lembrando que a pessoa em luto se questiona sobre a capacidade do cuidador em o ajudar verdadeiramente: “Será que posso confiar em você? Será que realmente vai me entender?”

Devemos cuidar para não minimizar as nossas perdas cotidianas. Sofrimento não deve ser comparado. Cada qual sabe o quanto aquela perda lhe faz falta. Talvez, buscar formas de lidar com nossas perdas nesse tempo de pandemia seja o mais interessante, pois todos já passamos ou passaremos por algum tipo de perda significativa em algum momento da vida. As pessoas podem procurar ajuda em grupos de apoio ao luto; na conversa amiga e confiável; como também, buscar ajuda de um profissional de saúde, especialmente, um psicólogo. As pessoas precisam falar sobre o que estão enfrentando ao vivenciar suas perdas, para que possam seguir no curso do seu processo adaptativo do luto.

Referências Bibliográficas:

BARICCA, A. M. Viver e Conviver com HIV/AIDS, In: Morte e existência humana: caminhos de cuidados e possibilidades de intervenção. Coord.: Kovács, M. J. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. Cap. I

ESSLINGER, I. De quem é a vida, afinal? Cuidando dos cuidadores (profissionais e familiares) e do paciente no contexto hospitalar. In: Morte e existência humana: caminhos de cuidados e possibilidades de intervenção. Coord.: Kovács, M. J. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. Cap. IX 

07 setembro 2020

O IMPACTO DO SUICÍDIO NA FAMÍLIA - Cristiane de Carvalho Neves


 A
tuo como psicóloga exclusivamente na clínica, e especialmente no enfoque sistêmico, nas perdas e no luto e em experiências traumáticas. Entretanto, independente da abordagem, o meu maior propósito quando recebo uma pessoa no consultório, é construir um vínculo afetivo e de escuta respeitosa com o paciente. 

Trabalhando com famílias, pessoas enlutadas ou traumatizadas, acabamos por nos aproximar de situações relacionadas ao suicídio. São pessoas que vem por indicação do psiquiatra ou trazido por algum familiar. Outra situação que também me acontece muito é o atendimento de uma pessoa que me traz queixas diversas, porém, com risco velado para o suicídio. O estudo e trabalho sobre os processos do enlutamento me treinou a uma escuta atenta a essa questão do suicídio; uma escuta que me possibilitou captar essa possibilidade e abrir porta para que a pessoa fale sobre isso. Assim, nos conduzimos ao primordial sobre a atenção aos aspectos do suicídio: a importância de poder falar sobre os pensamentos suicidas como prevenção.

É difícil explicar por que algumas pessoas escolhem o suicídio, enquanto outras, em situação similar ou pior, não o fazem. Se conseguirmos olhar para ato suicida como algo mais complexo do que imaginamos, poderemos compreender e ajudar melhor a quem está precisando dessa atenção. Acreditamos que a nossa principal tarefa como profissionais, e principalmente, como pessoas que temos interesse pela vida das outras pessoas, é fazer a prevenção e posvenção ao suicídio. 

A Prevenção se faz por meio da escuta ativa, da capacidade de se colocar no lugar do outro e de adentrar no mundo dele. E, para tal, não basta ser bom de coração, precisamos conhecer alguns aspectos que estão implicados na complexidade do comportamento suicida. Entre esses aspectos, temos os lutos não elaborados ou mal resolvidos; a precariedade afetiva nas relações familiares; o acúmulo de experiências de fracasso; um histórico de transtornos psíquicos; e, o mais agravante, a depressão, muitas vezes, não tratada por não ser admitida ou compreendida pela própria família. 

Portanto, a Prevenção se refere ao que podemos fazer para evitar o suicídio. Enquanto, a Posvenção é um conjunto de intervenções para evitar que uma nova tentativa de suicídio aconteça. Na Posvenção criamos estratégias de cuidados com o enlutado ou sobrevivente por suicídio, a fim de evitar o luto complicado e a repetição do ato.

As pesquisas e a nossa prática clínica apontam que a maioria dos que cometeram suicídio, de alguma maneira, se comunicou com familiares, médicos ou amigos, antes de atentar contra a própria vida. Também, sabemos que existem casos de pessoas, especialmente, as crianças, os adolescentes e os idosos, que agiram com impulsividade, imaturidade ou esconderam suas intenções, e privaram-se de qualquer ajuda, de tratamento e prevenção. De qualquer forma, sabemos que o suicídio ainda é um tema tabu na nossa sociedade, devido à nossa dificuldade em acolher a dor expressada ou manifestada. Geralmente, sentimos impotentes e impactados, até por conta dos nossos preconceitos. E como um familiar, a situação ainda é pior, devido aos sentimentos de culpa e medo que nos paralisam.

O suicídio ou a sua tentativa, exerce na família um impacto que se manifesta de diferentes formas, a depender da maneira como a família irá enfrentar essa situação. Por exemplo, a forma como a família lida com situações traumáticas, vai determinar o processo de luto ou a sua reorganização em caso de tentativa frustrada do suicídio.

Por falta de conhecimento, podemos observar que há muito preconceito na sociedade sobre o que é o suicídio e, também, vemos isso acontecendo na família, impedindo uma comunicação aberta entre os membros da família sobre o que se passa com eles. Sempre que se fala em suicídio ou em tentativa de suicídio, a tendência é ignorar ou reprimir, ao mesmo tempo em que se quer ajudar e acolher. Por isso, o contato fica mais difícil e, muitas vezes, não acontece.

A pessoa que tenta o suicídio precisa de alguém para confiar, e o resgate ou a criação do vínculo é de extrema importância na família, podendo o aprendizado começar por meio da terapia com o vínculo terapêutico ou com o auxílio do terapeuta no sistema familiar. As famílias devem ser incluídas no tratamento de pessoas com ideação e principalmente com tentativa de suicídio. Às vezes, a família se sente muito culpada ou pode pensar que, se for atendida, roubará tempo do atendimento àquele que, na sua concepção, mais necessita. 

Entretanto, com a participação da família no processo psicoterapêutico da pessoa com tentativa de suicídio, percebo, em alguns casos, a preocupação ou medo dos pais ou cuidadores em se “descobrirem” responsáveis por aquele comportamento do filho e não conseguirem carregar esse fardo. Porém, a ideia é poder trabalhar a coparticipação, assim como, a corresponsabilidade pela dinâmica relacional daquele sistema familiar, ajudando-os a encontrar uma nova forma de lidarem com as situações difíceis, juntos.

A pessoa quando chega ao ponto de atentar contra a própria vida, pode estar convivendo há bastante tempo com o sofrimento. É comum que o processo de comunicação entre os membros da família, principalmente com alguém que tentou o suicídio, fique frágil e truncado, não permitindo um bom acolhimento da pessoa, dificultando um trabalho preventivo. A prevenção nesses casos é muito necessária para que não haja uma nova tentativa. Cabe lembrarmos que é na crise que se ressignificam os papéis e se torna uma possibilidade de desenvolver a resiliência permitindo à família superar a desestruturação e se reorganizar a partir dela.

Quando alguém na família tenta suicídio ou quando morre por suicídio e isso não é conversado, criando um segredo, criam-se buracos dentro do sistema e acabam sendo preenchidos com inadequações, além de que vai sendo repassado de geração a geração, criando repetições de padrões anteriores. É desejável que o diálogo seja uma constante no sistema familiar, onde todos se sintam pertencentes e acolhidos em suas diferenças. Essa característica familiar será importante para que cada um na família se sinta respeitado na sua forma de expressar o seu sofrimento do luto.

O alerta sobre os cuidados com as pessoas que sofrem não deve se restringir apenas no mês de setembro, mas sim, durante o ano todo. Vamos cuidar da nossa família – fazendo o nosso melhor, ofertando atenção, carinho e respeito – e da nossa espiritualidade, nos conectando com a força maior que vem de Deus. É disso que todos nós precisamos.

 

Por Cristiane de Carvalho Neves

Psicóloga Clín. Esp. em Atend. Sistêmico Familiar e Luto


20 julho 2020

Fenômeno psicológico da dependência - Ricardo Gandra Di Bernardi


Somos Espíritos encarnados, trazemos em nosso inconsciente grande manancial de energias construídas ao longo dos milênios, isto é, de inúmeras reencarnações. Nossas mentes produzem ondas, geram campos de força e tem facilidade de sintonizar com outras mentes que vibram na mesma faixa que a nossa, mas, quanto maior a fragilidade ou imaturidade espiritual mais buscamos, instintivamente, apoio em outras mentes.
São sobejamente conhecidos os sintomas e comportamentos das pessoas que se acham dependentes de substâncias químicas e podemos fazer uma analogia com a dependência psíquica. Indivíduos, encarnados ou desencarnados, quando apresentam desequilíbrios vibratórios decorrentes de mente enferma ou debilitada, podem se tornar dependentes de outras pessoas ou até mesmo de ambientes, esses Espíritos encontram-se em dependência psíquica.
 O dependente químico tem sintomas iniciais de euforia e aparente bem-estar, mas, com o tempo, os malefícios começam a aparecer e cresce a dependência ao produto ou droga. Na fase de viciação, há diversos prejuízos, também para as pessoas de convivência diária, pois a ausência da substância química desenvolve comportamentos de agressividade, agitação e outros, ocasionando sérios problemas no meio familiar e social que convivem.
A dependência mental, como fragilidade espiritual, segue o mesmo raciocínio da dependência química. Conversas picantes, anedotas chulas e atitudes depreciativas tidas como divertidas, quando relacionadas a determinados grupos, etnias, lugares ou tipos de pessoas, são exemplos que poderão trazer sensações de prazer mórbido, e a repetição dessa conduta, determina uma dependência mental e viciação à padrões de pensamento de baixo teor vibratório.
Há uma sintonia do indivíduo com Espíritos desencarnados que se comprazem com futilidades, além do indivíduo sintonizar com ondas mentais de pessoas encarnadas que irradiam pensamentos do mesmo padrão.  À medida que o Espírito (encarnado ou desencarnado) sintoniza com mentes desse jaez, passa a se alimentar de energia vital ou outras formas de energia provindas de mentes enfermas e, tal qual um dependente químico, passa a sentir falta da “alimentação” que o “nutre”. Sente-se carente da presença ou convívio de outras mentes enfermas com características semelhantes; já está, agora, na fase de dependência psíquica e se for afastado ou impedido do convívio com seus semelhantes - por orientação terapêutica ou espiritual -, pode apresentar agitação e agressividade exigindo cuidados especiais. Assim, observa-se que os sinais e sintomas do dependente psíquico, ao se ver privado de sua fonte de energias enfermas, se assemelham muito aos do dependente químico.
Existe, também, a dependência mental a uma pessoa, um líder por exemplo. O indivíduo sente um desejo incontido de estar próximo daquela pessoa, ser tocado, ouvir sem analisar, enfim, torna-se emocional e irracionalmente preso. Há inúmeras modalidades de dependência psíquica, por exemplo, necessidade exacerbada de fazer compras, prender-se a seriados na TV, internet, telefone celular, estádios de futebol, bares e outras, desde que essas atividades impeçam a pessoa de tornar-se mais produtiva, ampliando seus conhecimentos e valores da alma.
Quando esse tipo de distúrbio não é diagnosticado e tratado corretamente, o Espírito ao desencarnar leva consigo essa dependência e permanece atraído aos locais, atividades e pessoas às quais se encontra preso psiquicamente.
A leitura de bons livros, música elevada, filmes e documentários que tragam conhecimentos e estímulos aos bons princípios da ética são atividades que nos afastam das dependências psíquicas prejudiciais ao nosso Espírito. Buscarmos ambientes de harmonia e conversas saudáveis criam uma psicosfera favorável ao equilíbrio e refletem em nós a vontade do crescimento espiritual.
São preferências, desejos e vontades que determinam o tipo de energia que geramos e, principalmente, absorveremos e sentiremos falta quando estivermos privados dela. Vibremos no amor, alegria, tranquilidade, paz, estudo e trabalho que a atmosfera mental de nossos Espírito se enriquecerá com convivências construtivas, sem dependências psíquicas.    
Todo costume, mesmo sendo elevado e construtivo deve libertar com responsabilidade e nunca prender.   

  Bibliografia PALMEIRA, José A. M./ BORTOLETTO, Ivaneide./ PESCHEBÉA, Marisa. A Dança das Energias, Cap. 3, 3ª Edição, Curitiba, Ed. Centro Espírita Luz e Caridade, 2016.  
KARDEC, Allan. O Livro dos médiuns. Tradução de Herculano Pires São Paulo, Ed. LAKE, 1973. 
XAVIER, Francisco Cândido/Espírito André Luiz.  Mecanismos da mediunidade. 8. Ed. Rio de Janeiro, FEB, 1959.  Evolução em dois mundos. 9. Ed. Rio de Janeiro, FEB, 1959. 

Dr. Ricardo di Bernardi é fundador de ex-presidente da AME Santa Catarina, médico e conferencista espírita internacional.
  

18 julho 2020

Rituais de luto em tempo de COVID-19 - Cristiane C Neves



Nesse momento de pandemia, nós estamos vivendo vários tipos de luto, pois o processo de luto acontece em decorrência da experiência de perda, ou seja, a partir do rompimento de uma relação afetiva significativa. E, é isso que estamos passando nesse período, por diversas perdas importantes: emprego, produtividade, financeiras, perdemos aquele caminho planejado que estávamos percorrendo com sensação de segurança, perdemos temporariamente a convivência e o abraço das pessoas que amamos, e o pior de todas essas perdas: perdemos entes queridos. Nesse contexto, os rituais de passagem entre a vida e a morte têm o objetivo de reduzir a dor da perda, contribuindo para um processo de aceitação e continuidade da vida. Os rituais do luto são reconhecidos como fator de proteção muito efetivo e que favorece o processo de luto.
Na ausência desse ritual por conta do isolamento e proteção contra o vírus, é importante a comunicação com pessoas familiares ou no meio social ou religioso que passaram pela perda: ter contato afetivo (que seja virtual), a troca de experiências, uma rede de apoio ativa em que podemos confiar. Como exemplo, a Comunidade Espírita Ramatis oferece esse suporte emocional por meio do grupo de apoio aos enlutados. O acolhimento ao enlutado deve ser isento de “correções” dos sentimentos do enlutado e não deve haver medidor da dor ou comparações. Cada qual sabe a dor da sua perda e essa deve ser ouvida e respeitada. O luto já dá uma sensação de que estamos sozinhos no mundo, e ficar isolado com o nosso sofrimento pode potencializar isso, gerar mais sofrimento levando ao adoecimento emocional e físico.
A morte repentina e inesperada, que pode acontecer por tragédias ou morte súbita e, atualmente, vem acontecendo por conta da potencialidade desse Coronavírus, é considerada complicadora para a elaboração do luto reconhecido como luto normal e pode gerar transtornos psicológicos importantes nos enlutados por esse tipo de perda. O processo de luto se dá de forma mais intensa e duradoura do que o esperado, por não ter conseguido processar a situação nem se despedir de forma que lhe permita ter um senso de realidade e concretude.
A impossibilidade para que seja feito o trabalho do luto antecipatório – aquele que antecede à morte e auxilia no processo de finitude tanto para o doente em estado terminal, quanto para a família que prevê a perda – e, a consequência do impedimento de vivenciar os rituais fúnebres, pode trazer intensos sentimentos de raiva, culpa, choque, pânico, angústia, que somados a uma experiência de luto coletivo, no caso da pandemia, aumenta o risco para a complicação das características de um luto normal, no qual dá-se o nome de luto complicado. O enlutado vivenciando um luto complicado vai necessitar de um cuidado maior tanto das pessoas próximas, quanto de profissionais qualificados para auxiliá-lo na retomada de investimento nas situações necessárias para o enfrentamento da vida. Portanto, a fim de minimizar os efeitos nocivos para o luto, vamos sugerir algumas adaptações para a realização dos rituais fúnebres: 
·        Podemos promover encontros virtuais com familiares e amigos que conheceram e conviveram com o falecido. Podemos pedir para as pessoas trazerem para o encontro on-line algo simbólico para compartilhar, como uma vela acesa; uma memória ou história sobre o falecido; uma imagem ou um poema como homenagem ao falecido. Fazer com que as pessoas contribuam dessa maneira pode ajudar a criar uma sensação de unidade e conforto. Essa pode ser uma forma de o enlutado receber o carinho e acolhimento, podendo compartilhar os seus sentimentos com aquelas pessoas conhecidas. E todos podem chorar ou sorrir juntos.

·        Pode-se reservar um tempo para criar um memorial em casa. Uma sugestão seria reservar um tempo olhando as fotografias do falecido, acender uma vela, escrever uma mensagem para ele, seguir um ritual familiar ou espiritual.

·        As pessoas também podem escrever homenagens e memórias afetivas em um documento compartilhado que pode ser transformado depois em um lindo livro de memorias.

·        Possibilitar contato virtual, enquanto não é possível presencial, com líderes religiosos importantes para a família e que sejam significativos para esse momento: cultos/missas virtuais.

·        Como os rituais religiosos públicos estão restritos, podemos sugerir orações em vídeo conferência ou simplesmente marcar um horário para que a família e amigos, cada um de sua casa, dirijam sua atenção e preces ou pensamentos ao falecido e aos enlutados em torno. Pedir para que acendam uma vela em um mesmo momento e compartilhem por WhatsApp também é simbólico.

E na situação de um ente querido internado podemos:
Escrever uma carta (embalada em um saco plástico) ou fazer uma gravação em vídeo que possam ser entregues por profissionais de saúde, são duas ideias interessantes. Pedir que uma música especial seja tocada ou uma poesia seja lida, são outras. Ou seja, lembrar histórias, cantar canções, ler textos, agradecer pela vida daquele que está hospitalizado.
Confiantes no nosso processo de evolução, desejo que possamos passar por essa tribulação, com esperança de um amanhã melhor e reforçados na nossa fé de que que há um Deus no comando de tudo e de todos. Que assim seja!

Por Cristiane C Neves

Psicóloga Clínica Especializada em Luto