Hilário Silva nos traz no belíssimo livro – O espírito da verdade – um capítulo
onde compara o ato de falar com a atitude de alimentar o espírito e o ato de
ouvir com a atitude de receber esse alimento. Neste contexto, a língua seria
uma colher e o ouvido, a garganta da alma.
Cada palavra dita, envolvida por suas emoções e intenções particulares, funcionaria como alimento ou veneno, remédio ou tóxico.
Vale a pena aprofundar nesse ensinamento.
No nosso dia a dia, a todo momento trocamos impressões com outras pessoas, seja na família, trabalho, onde quer que seja. Nessas conversas mais ou menos informais, recebemos e damos conselhos, pedimos e oferecemos ajuda ou em algumas ocasiões podemos ser a causa de desavenças e desarmonias ou até mesmo os receptores de energias negativas e densas.
Mas existe uma diferença fundamental entre as posições de quem fala e de
quem ouve.
Quando eu escuto alguma coisa, teoricamente, eu deveria pensar primeiro se
gostaria de receber o que está sendo entregue a mim. Ou seja, o ato de escutar
deveria ser uma escolha e não uma porta aberta a toda e qualquer energia. Quem
fala está oferecendo algo, mas quem escuta pode e deveria escolher se vai se
apossar daquilo ou simplesmente deixar passar o que não lhe pertence.
Dias atrás uma paciente me disse no consultório que ficou extremamente
ofendida com uma brincadeira do marido que a chamou de alcoólatra, numa brincadeira
grosseira em família. Acontece que ela nunca bebeu na vida. Não é estranho que
mesmo não mantendo nenhuma relação com a brincadeira de mau gosto, ela mesma
assim tenha se ofendido?
Porém quando falamos não temos essa escolha.
No Sermão da montanha vemos a frase de Jesus - Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia (Mateus 5:7). Jesus, no alto da sua pedagogia espiritual nos ensinava que cada um se encontrará com o que tem. Se a minha língua (colher) se manifesta somente com palavras (alimentos) negativas, é disso que me alimento, porque antes das minhas palavras e sentimentos serem expressos, eles existem em mim, trazendo o alívio do medicamento ou o sofrimento do veneno.
Como encontrar a paz, se eu proclamo a desordem e a desarmonia aonde vou?
Mesmo que dentro de nós exista um vulcão de sentimentos em erupção
eminente, é importante usar a disciplina para calar aquilo que pode prejudicar,
entendendo que o primeiro a sofrer a ação negativa de palavras duras e
equivocadas seremos nós mesmos.
George Herbert dizia - Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam
melhores do que o teu silêncio... –
Vamos nos policiar. A disciplina traz paz.
Vigiar nossas palavras é fundamental. Selecionar se aceitamos ou não o
que escutamos também.
Paz e luz!
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