09 abril 2012

COMO SE DEVE ENTENDER A RELAÇÃO ENTRE O ESPIRITISMO E A CIÊNCIA


COMO SE DEVE ENTENDER A RELAÇÃO
ENTRE O ESPIRITISMO E A CIÊNCIA
Ademir L. Xavier Jr.


Resumo

Discute-se aqui brevemente a interação entre o Espiritismo e as ciências. Essa relação pode ser entendida de diversos aspectos, uma necessariamente que considera o aspecto científico do Espiritismo. É importante, porém frisar que não pode haver compreensão correta dessa interação, se não se tem compreensão correta do sentido em que se fala de aspecto científico do Espiritismo. Essa discussão apresenta implicações importantes para os espíritas que acreditam na necessidade de atualização da Doutrina Espírita.


1.Introdução

Todo adepto com razoável entendimento dos princípios da Doutrina Espírita sabe que ela é um conjunto de princípios que se apresentam como afirmações sobre o mundo. Não é menos certo que muitos desses princípios, ainda que se apliquem ao objetivo maior do Espiritismo que é o estudo do elemento espiritual, contém afirmações singulares e gerais sobre o mundo material. Isso necessariamente nos leva à fronteira entre o Espiritismo e as ciências bem estabelecidas que também afirmam coisas sobre o mundo. Para que haja evolução na forma de aquisição de conhecimento – um dos objetivos das ciências e também do Espiritismo, no caso, conhecimento sobre o mundo espiritual – faz-se necessário conhecer exatamente como se dá essa relação.

A ciência, tal como a conhecemos hoje, é produto da evolução lenta com que nossa sociedade passou nos últimos séculos. Não existe um consenso geral (na forma de uma formula ou padrão estabelecido) sobre qual seria a definição exata de ciência. Podemos, porém, descrevê-la de acordo com alguns de seus atributos bem conhecidos. De todos eles, um que parece conveniente para caracterizar as chamadas ciências bem estabelecidas (física, biologia, química e outros) é a noção de paradigma1. Por paradigma entende-se um conjunto de princípios que versam sobre determinado objeto, e que se encontram naturalmente relacionados a um grupo ou conjunto de fenômenos naturais. Fazem parte do corpo que forma o paradigma também leis complementares a completar o conhecimento, permitindo a aplicação das leis do corpo principal aos fenômenos observados. Os paradigmas são os campos de trabalho tradicional na pesquisa normal das grandes áreas do conhecimento científico. Assim, Ciência não é a mera coleção de fatos e hipóteses mas algo muito mais complexo, em constante mutação através das gerações possuindo seus próprios sistemas de proteção a fim de evitar que seu corpo principal de doutrina seja corrompido. Não se pode mudar a orientação de determinado programa de pesquisa de uma noite para outra, ainda que se tivesse uma boa razão para isso. As mudanças nos programas de pesquisa que caracterizam o paradigma – conhecidas como revoluções científicas – necessitam de um tempo de maturação e, muitas vezes, uma mudança no posicionamento dos cientistas, na maneira como eles vêem o mundo. As revoluções científicas são acontecimentos de curta duração seguidos muitas vezes de estágios de desenvolvimento mais ou menos estáveis.

Semelhantes considerações, como pode se compreender, não devem ser deixadas de lado na análise do assunto que serve de título a este texto. Da mesma forma, de uma análise imparcial da própria Doutrina Espírita deve nascer um modelo de idéias que consiga descrever corretamente o que se entenda por "aspecto científico" do Espiritismo. De posse desses dois ingredientes (compreensão correta do aspecto científico do Espiritismo e do significado da Ciência) podemos então considerar seriamente um debate sobre a relação entre esses dois ramos do conhecimento humano. Apresentamos aqui brevemente alguns subsídios para se iniciar esse debate.


2. Noções incorretas de ciência espírita e ciência normal. Discutindo um modelo mais apropriado de ciência.

Um número razoável de espíritas e simpatizantes procuram abordar o aspecto científico do Espiritismo de forma a moldá-lo segundo a visão parcial do conhecimento considerado genuinamente científico. Essa visão parcial vê a ciência como uma atividade extremamente rigorosa em seus métodos de análise, e acredita que os sucessos obtidos com o desenvolvimento científico – que permitiram compreender os fenômenos e desenvolver novas aplicações tecnológicas – são produto direto desse rigor metodológico. Nada poderia estar mais longe da realidade. O sucesso da ciência atual, que se materializa na forma de produtos tecnológicos e sofisticados métodos numéricos de reprodução da realidade em seus mínimos detalhes, não decorre apenas de um rigor metodológico qualquer que seja ele, mas principalmente das teorias que nascem em sua forma primitiva na cabeça dos cientistas. Semelhante compreensão parcial da realidade é comum para muitos espíritas que acreditam que os fenômenos espíritas devam satisfazer necessariamente a critérios de adequação empírica conforme os moldes das ciências normais. Para esses, a "ciência espírita" tem a haver unicamente com a parte fenomenológica (na forma da mediunidade em seus múltiplos aspectos) com exclusão de qualquer consideração de princípios. O Espiritismo é visto como um amontoado de fenômenos a partir dos quais se pode inferir um conjunto de afirmações mais gerais e deduzir conseqüências. Seguindo esse caminho, logicamente os inimigos do Espiritismo se comprazem em negar os fenômenos ou inventar explicações alternativas que parecem atingir os supostamente deduzidos princípios espíritas. Coincidentemente, essa visão também é popularmente atribuída à ciência. De uma maneira simplificada podemos esquematizar o entendimento popular de ciência – que dá origem ao chamado "método científico" – de acordo com a Fig. 1.


Nessa figura, um observador bem intencionado (quer dizer, isento de pré-julgamentos ou explicações próprias consideradas tendenciosas) observa os fenômenos da natureza. Essa observação deve ser igualmente isenta e completa suficiente para não permitir perda de informação a respeito dos fenômenos. Deve ser realizada de forma a cobrir o maior número de "condições" possíveis, o que leva à necessidade de se repetir testes experimentais um grande número de vezes. A partir dos fenômenos ele elabora hipóteses consideradas razoáveis que, por um processo mal explicado, degenera (ou se sintetiza) em "leis gerais". Esse processo de criação de leis gerais é denominado indução. A partir das leis induzidas outros fenômenos semelhantes (ou os mesmos) podem ser explicados por um processo denominado dedução. Um ponto importante a ser considerado diz respeito às conseqüências para o desenvolvimento de uma ciência se o modelo mostrado na Fig. 1 for considerado ideal. Compreensivelmente pode-se com ele destruir qualquer tipo de explicação negando-se simplesmente os fenômenos. Desde que esses não existam, não há sentido em se acreditar nos princípios deles supostamente induzidos. Isso acontece com os que negam inúmeras vezes com os fatos psíquicos, e com ele a idéia de comunicação entre vivos e mortos e a sobrevivência dos seres após a morte.

Como dissemos, o sucesso da ciência contemporânea bem estabelecida advém de sua estrutura intrínseca onde os fenômenos não têm papel central. O papel principal no estabelecimento da ciência é atribuído aos paradigmas ou teorias. Muitas vezes pode acontecer que uma determinada teoria seja melhor que uma outra, ao mesmo tempo que ninguém acredite nela. Teorias como realizações mentais ou afirmações sobre o mundo são criadas livremente por um grupo restrito de cientistas (às vezes apenas um indivíduo), e portanto, fazem parte de sua bagagem cultural como crenças. É pela adequação dessas teorias aos fenômenos que elas se tornam aceitas a um grupo maior. O problema é que a definição de experimentos ou a previsão de determinadas ocorrências fenomenológicas depende da teoria. Poderíamos dar inúmeros exemplos dessa situação. Em física – que é uma das ciências comumente consideradas com grande prestígio – é bastante nítido a ocorrência de "previsões experimentais" como resultado direto de teorias sofisticadas onde nada remotamente parecido com o fenômeno em questão tenha entrado como ingrediente. Algumas outras vezes, são feitas previsões de objetos ou circunstâncias nunca observados anteriormente. Essa inversão de papéis, no que tange à importância para o desenvolvimento da Ciência entre teoria e experimento, é a principal causa de confusão tanto no que se refere à compreensão correta da Ciência em si como do aspecto científico do Espiritismo. Conseqüentemente deve-se fazer um esforço para compreender essa inversão a fim de que seja útil na discussão da relação entre o Espiritismo e a Ciência.

A Ciência só tem início com a teoria. Essas podem ter qualquer origem – sejam motivadas por algum acontecimento experimental ou por algum sonho de pesquisador (como no famoso caso do sonho de Kekulé ao conceber o formato dos anéis de carbono no benzeno). A origem do conhecimento científico não é importante para a Ciência. Isto que dizer que uma determinada teoria não tem valor maior ou menor conforme sua origem, embora muitos cientistas sejam levados a crer ou não nelas de acordo com a força de autoridade de seus proponentes. A partir da proposição da teoria, segue a tentativa de explicação dos fenômenos com ou sem a ajuda de leis complementares que não fazem parte do núcleo principal da teoria. Como um exemplo rápido podemos considerar o processo de previsão de tempo na meteorologia. As leis que governam os fenômenos meteorológicos são leis físicas, assentadas em princípios térmicos e termodinâmicos. Para prever a situação de tempo com todos os detalhes, pode-se construir modelos numéricos sofisticados onde essas leis estejam embutidas juntamente com "condições de fronteira" específicas tais como a separação entre continentes e mares, o estado inicial de temperatura de uma determinada região, a posição do sol (sua altura em relação ao solo) etc. Essas são as leis complementares.

Dissemos que a maior parte das pessoas considera a noção popular a própria essência do "método científico". Isso é particularmente forte nas denominadas "ciências parapsicológicas", ou o conjunto de disciplinas que tem como objetivo explicar de maneira supostamente científica os fenômenos mediúnicos no Espiritismo. Essas disciplinas apresentam escassa discussão teórica, dando enorme ênfase a descrição puramente fenomenológica dos fatos psíquicos. Quando são fornecidas explicações, essas procuram ligar-se fortemente aos fenômenos. Dessa forma, é comum a tentativa de explicação simplificada para cada fenômeno. Assim a telepatia é invocada como "hipótese" para explicar as comunicações dos Espíritos, negando-se a existência desses últimos. Ora a "telepatia" é definida simplesmente como a capacidade de transferência de informação entre duas "mentes" (no caso, pessoas). Essa capacidade pode ser constatada de forma experimental. É um fato e não um princípio sobre o qual se possa estabelecer uma explicação. Nas "ciências psi" busca-se dar explicações aos fatos utilizando-se os próprios fatos. Nesse processo explicações são muitas vezes tornadas verossímeis pela sua designação por nomes empolados, difíceis de se pronunciar e com nenhum apelo intuitivo. É muito conhecida a frase, dada a guisa de explicação, de que os fenômenos psíquicos se fundamentam nas capacidades desconhecidas do cérebro. Diz-se que os seres humanos normais utilizam apenas "10% da capacidade cerebral". Ora, qual a base para semelhantes afirmações? Como se mede essa capacidade cerebral? Nas "ciências parapsicológias" ocorrem falhas graves de compreensão dos verdadeiros atributos de uma disciplina para ser denominada ciência.

Já discutimos muito brevemente que uma verdadeira ciência se constrói utilizando modelos, teorias ou paradigmas. A Fig. 2 ilustra essa "concepção de ciência" mais próxima da realidade. Há num centro irradiador de explicações (a teoria), e integrado naturalmente aos fenômenos naturais a respeito dos quais a teoria ou paradigma versa. Leis complementares reforçam a estrutura do paradigma e integram os princípios, que fazem parte dele, aos fenômenos. Juntamente com essas leis, o paradigma fornece explicações para os fenômenos, inclusive alguns desconhecidos. É possível assim que no corpo teórico que constitui o paradigma, já exista o gérmen para explicação de muitos fenômenos nunca observados. Esse modelo encontra respaldo na história do desenvolvimento de muitas ciências bem sucedidas.


Também o modelo da Fig. 2 não faz nenhuma referência à necessidade externa de "instrumentos especiais de medida" e nem a métodos supostamente rigorosos de medida experimental, pois a existência desses aparelhos (a explicação de seu funcionamento) só se justifica pelo paradigma que para eles fornece explicação. É o caso, por exemplo, da utilização de equipamentos ópticos para estudar o movimento dos planetas e outros corpos celestes. A explicação do funcionamento dos equipamentos é fornecida pela óptica, uma área da física, não necessariamente ligada à astronomia ou astrofísica. É possível englobar os princípios da óptica e da mecânica dos corpos em um corpo de teoria comum (no caso a "física"), mas prefere-se mantê-los separados por referirem a domínios fenomenológicos diferentes. Ressaltamos porém que o grau de complexidade desses aparelhos não tem correlação alguma com o rigor com que eles realizam suas medidas. Muito ao contrário, nesse modelo, estimula-se a realização de testes experimentais simples, de observação direta, onde haja pouca influência de fatores de erro a comprometer a realização das medidas. No modelo da Fig. 2 a teoria tem papel fundamental e não o fenômeno. Desde de que se creia e desenvolva a teoria, explicações para os fenômenos irão aparecer. Visto de outra forma, os fenômenos são justificados (explicados) pelo modelo a ponto de só poderem ser percebidos por aqueles que disponham de conhecimento do paradigma. Muitas vezes é possível notar que um mesmo paradigma fornece explicações para inúmeros fenômenos – muitos deles tratados inicialmente como sem correlação alguma com a teoria. Há inúmeros exemplos como esses nas chamadas "ciências normais", as ciências que se desenvolveram historicamente segundo o modelo "paradigmático" de ciência. Percebe-se que a negação dos fenômenos não traz conseqüência alguma para a ciência vista nesse sentido pois o paradigma tem papel fundamental. Nesse caso, negar um fato soa profundamente suspeito de falha de compreensão da teoria ou paradigma. Não há também nenhuma preocupação com o grau de comprometimento do cientista com sua crença: pelo contrário admite-se abertamente que ciência é uma atividade onde a criatividade e crença particular do cientista tem uma importância muito grande e benéfica para a ciência. Há, porém, limites para a livre criação, o corpo teórico deve ser inter-relacionado e coerente, isto é, seus princípios não devem conflitar entre si. Além disso, a excelência de um determinado paradigma é medido em termos de sua capacidade de explicar os fenômenos a ele ligado e também prever outros. Assim, não basta apenas criar muitas explicações, essas originam-se de princípios mais primitivos e harmônicos, mais ou menos imutáveis2.

Entendemos que a parte científica do Espiritismo deve ser entendida conforme o modelo da Fig. 2. Nele os fenômenos são parte secundária e não fundamental da doutrina. A Doutrina Espírita contém o núcleo principal teórico da ciência espírita. Da utilização de leis complementares chega-se a explicação dos fatos. No caso dos fenômenos mediúnicos, a existência do perispírito como agente intermediário entre o Espírito e o corpo material é fundamental para compreender a imensa maioria dos fenômenos mediúnicos também denominados psíquicos. Entretanto, a Doutrina Espírita vista como paradigma com conseqüências mais profundas, abarca um conjunto muito mais extenso de fenômenos: fenômenos sociais (principalmente comportamentais), biológicos, históricos, patológicos etc. Assim, embora não seja seu objetivo principal, o Espiritismo contribui a muitas áreas do conhecimento, em particular àquela que busca compreender a origem, essência e futuro do homem entendido como uma criatura sem limite no tempo. O Espírito é assim o objeto de estudo da ciência espírita e o paradigma espírita é formado por um conjunto harmônico e mais ou menos fixos. Princípios como a existência de Deus, do espírito como elemento fundamental (além da matéria), da evolução do espírito e da comunicabilidade entre os Espíritos e os homens (reinterpretados como Espíritos encarnados) são alguns dos princípios fundamentais. Esses princípios juntamente com outros (tal como a busca da felicidade por parte das criaturas) explicam e prevêem os fenômenos. Consideremos o caso das doenças denominadas "psiquiátricas". Faz parte desse enorme grupo de patologias mentais, (que afetam o comportamento do indivíduo) um grupo não menos importantes de doenças provocadas por influências espirituais – as obsessões em seus mais diferentes graus. Compreender o surgimento dessas doenças, que fornece idealmente a base para um tratamento eficaz, é tarefa simples para o Espiritismo (desde que corretamente aplicado), mas muito difícil para as correntes que negam a existência do Espírito, e que buscam uma explicação puramente material. Já citamos aqui a telepatia. Dentro do paradigma espírita, a comunicação entre Espíritos é um fato bem estabelecido. Em particular, a comunicação entre Espíritos encarnados é uma forma particular dessa capacidade de comunicação. Temos assim uma explicação muito natural (dizemos "intuitiva") da telepatia. Essa explicação funda-se num princípio muito mais geral que explica simples e igualmente bem a enorme variedade de comunicações ou fatos psíquicos.


3. Como se deve entender a relação entre o Espiritismo e a Ciência.

Depois dessa discussão inicial, fica claro que não se pode falar em uma receita infalível, tal como o sonho de um método rigoroso, para se fazer ciência. Ela é o resultado de uma atividade altamente complexa e integrada no tempo através de grupos de indivíduos formando uma cultura. O Espiritismo, diante das considerações feitas, classifica-se plenamente como uma doutrina científica. Não segue daí que deva adotar o modelo popular de ciência por algumas das falhas que discutimos anteriormente. Essa discussão é importante para os que consideram a Doutrina Espírita, desenvolvida nos livros básicos de Allan Kardec, como conhecimento ultrapassado. Não existe nada mais longe da realidade. Como dissemos, o corpo principal da teoria é protegido com certa rigidez. Modificações no paradigma só acontecem – são conclusivamente admitidos como necessários – se houverem razões muito fortes para isso. Tal não é o caso do Espiritismo proposto pelos Espíritos que auxiliaram Kardec. Da mesma forma que negar os fenômenos é sinal de falha na compreensão do paradigma, com muito mais razão, as tentativas de "reforma" do núcleo principal do Espiritismo (invenção de novos princípios em desacordo com aqueles) é sinal forte de falha na compreensão desses princípios. Clamores recentes nesse sentidos são assentados em considerações bastante pueris, e deixam entrever uma dificuldade de compreensão do verdadeiro caráter do Espiritismo entendido como ciência.

A tarefa agora é começar a entender como se estabelece a relação entre o Espiritismo e as ciências. Certamente não será objetivo do Espiritismo competir com esses ramos de atividade humana. Por isso, não é tarefa do Espiritismo fornecer explicações alternativas ou desenvolver o núcleo principal das ciências com as quais o Espiritismo faz fronteira. Não se deve esquecer que o Espiritismo como movimento é uma realização humana. O cientista que é espírita – se trabalha profissionalmente com alguma dessas áreas correlatas – tem seus próprios meios e procedimentos, advindos do estudo adquirido de sua atividade. Como faz parte do processo de desenvolvimento da ciência normal, ele pode (e deve) utilizar-se dos meios a sua volta (inclusive sua própria cultura) para fazer desenvolver sua ciência que tem suas regras próprias. Como dissemos, a ciência não faz caso da origem do conhecimento, o importante é que esse se organize como um paradigma bem estruturado, coerente e naturalmente integrado aos fenômenos. Fazemos abaixo alguns breves comentários das regiões de fronteira entre a Doutrina Espírita e as ciências enfatizando alguns pontos que nos parecem interessantes:

Espiritismo X Astronomia: é bem conhecida as descrições da origem do sistema solar (nebulosa primordial) existente no livro "Gênese" [2] de Allan Kardec. O capítulo VI de "Gênese" também fala de inúmeras galáxias (denominadas "nebulosas" – entendidas como agrupamentos de bilhões de estrelas como a "Via-Láctea") numa época em que não se havia certeza desse fato. Há relatos de comunicações de Espíritos anunciando a existência de satélites desconhecidos em outros planetas. Além disso, o Espiritismo parece ter se antecipado às discussões que deram origem à exobiologia, proposta para estudar as formas de vida extraterrestres. É interessante observar que, uma vez classificada como um planeta qualquer, a Terra passou a ser vista como um dos muitos planetas a ter vida inteligente no Universo (algo muito difícil de se acreditar no século 19). O Espiritismo prevê abertamente, pelo princípio da "pluralidade dos mundos habitados", a existência de vida inteligente fora da Terra (ainda a ser verificada pelos métodos normais – contato físico). Antes disso, porém, previu a existência de inúmeros planetas orbitando as estrelas, um fato que se tornou tema de pesquisa contemporâneo, graças ao desenvolvimento de novos métodos de observação muito mais precisos. Muitos planetas foram encontrados a partir de 1990 em torno de estrelas próximas.

Espiritismo X Física: aqui deparamo-nos com algumas afirmações feitas em "O Livro dos Espíritos" que parecem ter antevisto a modificação radical por que passaria a física a partir do século 20. Os Espíritos falaram em uma forma que "que não sois capaz de apreciar" [4] a respeito da estrutura dos átomos (uma alusão às "nuvens de probabilidade" dos elétrons?) num contexto bastante diferente para a física da época. Considerações sobre a origem do Universo são feitas no começo de "O Livro dos Espíritos", levando o Espiritismo para a fronteira com a cosmologia. É preciso, porém, ter cautela em se tratar a questão inversa: a da influência da física no Espiritismo. Muitos falam abertamente nas diversas "energias" que constituem o mundo espiritual, esquecendo-se que "energia" é um conceito muito bem definido em física e que não admite reinterpretações dessa forma [5]. Outros levantam a possibilidade de entender o próprio mundo espiritual como um "contínuo quadridimensional" do mundo físico. Para se utilizar conceitos e sugestões advindos do Espiritismo na física, faz-se necessário grande competência em física uma vez que os núcleos das teorias (tanto do lado espírita como material) possui certa resistência a mudanças, além de estar fundamentado em teorias profundamente matemáticas. Por isso mesmo, tentativas de modificação de conceitos por sugestão de ambos os lados (de um lado para outro) são muito duvidosas no que diz respeito a qualquer avanço significativo no conhecimento. É importante também considerar as questões de diferença de linguagem (significado de termos e conceitos dentro de cada teoria particular) quando essa linguagem tenta conectar um fenômeno supostamente descritível tanto pela física como pelo Espiritismo. Minha impressão particular é de que o grau de especificidade atingido pela física (especialização na forma de pulverização de campos de competência) torna pouco viável qualquer tentativa "fácil" de interação.

Espiritismo X Biologia (medicina): aqui a fronteira torna-se um pouco mais nítida. Em "O Livro dos Espíritos"[6], existem muitas questões a respeito da origem dos seres vivos. É também na "Gênese" que existe um famoso capítulo sobre a gênese orgânica. Naturalmente, esse capítulo faz eco às concepções da época, ainda às voltas com a "teoria da geração espontânea", então a teoria mais aceita. É no Capítulo XI da II Parte de "O livro dos Espíritos" [3] que vamos encontrar questões cujas perguntas reafirmam a natureza espiritual de todos os seres vivos e sua submissão à lei de progresso. Naturalmente, os mecanismos da evolução das espécies não estão afirmados nesses livros, mas o princípio de evolução espiritual ajusta-se perfeitamente bem aos princípios da seleção natural, representando um mecanismo de modificação que atua na parte material levando o Espírito a se desenvolver. É importante considerar que as discussões sobre a gênese orgânica são complementares para a compreensão da Doutrina e seu desenvolvimento. Por isso esses pontos, assim como muitos outros, sofrem e sofrerão modificação, sem que haja impacto ao corpo principal de doutrina.

Tal não é o caso, porém, com as inúmeras patologias da alma [7] que citamos acima. Nos quadros obsessivos, a ação do Espírito obsessor pode levar ao colapso orgânico do obsidiado. A origem da doença, em sua íntima essência, encontra-se assim descrita através desse quadro de "simbiose espiritual". É difícil entender como outra teoria – que desconheça a ação dos Espíritos – possa ter um sucesso maior no desenvolvimento de uma terapia apropriada. Aqui vê-se claramente a enorme importância dos princípios espíritas no desenvolvimento de certos ramos da medicina pois não se trata apenas de construção ou progressão da ciência mas do desenvolvimento de terapias apropriadas a inúmeros transtornos mentais.

Espiritismo X História: as contribuições que o Espiritismo pode dar à História são bastante evidentes. Um aspecto bastante inovador surge aqui, que é o de considerar os relatos históricos fornecidos pelos Espíritos, quando por meio de médiums conhecidos. São notórios os casos de médiums que colaboram com investigações policiais na elucidação de crimes. No Brasil a psicografia já ajudou a elucidar vários assassinatos. Com médiums equilibrados, os Espíritos podem fazer revelações úteis ao progresso moral da sociedade e, muitas vezes, essas revelações trazem noticias de relevante valor histórico (como no caso dos inúmeros romances históricos de Emmanuel por meio de Francisco C. Xavier).

Espiritismo X Psicologia: o Espiritismo tem muito a contribuir com as disciplinas que tem como objetivo de estudo o homem em sua essência. Esse é o caso da Psicologia. Podemos falar em uma psicologia espírita que nasce por "inspiração" dos postulados da doutrina (principalmente de suas conseqüências morais) na maneira de viver, de se comportar e de interagir dos seres humanos. O conhecimento da lei de evolução e reencarnação é crucial para se entender as tendências inatas dos seres humanos que determinam o comportamento para além das limitadas considerações genéticas. Esse certamente é um campo com grande futuro, onde apenas vislumbramos um começo.

Espiritismo X Sociologia: o comportamento social e evolução das sociedades é função de seu desenvolvimento cultural, de seu passado e da maneira de ser de seus indivíduos. Como no caso da História e da Psicologia, o Espiritismo tem muito a contribuir para o estudo e desenvolvimento da história social do homem uma vez que o compreende como Espírito em perene evolução. Há uma interação natural, desde a mais remota antigüidade entre o mundo material e o plano espiritual. Esse fluxo é responsável pelo aparecimento e desenvolvimento de muitas religiões e culturas consideradas "inspiradas". Dos princípios e informações fornecidos pelos Espíritos é possível complementar a história sociológica de várias sociedades.

Todos esses campos (assim como outros não listados acima tais como as artes) aguardam um futuro quando o espírita cientista seja capaz de utilizar judiciosamente o conhecimento espírita, de acordo com as regras estabelecidas por sua ciência particular. O objetivo não é fazer o Espiritismo brilhar para a sociedade como um concorrente das ciências, mas como fonte de inspiração e origem para proposição de novos mecanismos de explicação dos fenômenos e ocorrências característicos de cada uma delas.

Considerações diferentes dizem respeito à atuação do cientista espírita. Por esse termo referimo-nos àqueles que pretendem desenvolver a ciência espírita a partir de seus princípios ou com a modificação desses, utilizando idéias advindas de outras ciências. É uma conseqüência natural que se pretenda estabelecer um ambiente acadêmico espírita – uma vez verificado o caráter científico do Espiritismo. Mas cautela é necessária para não exagerar demais nas comparações. Se o Espiritismo é de fato uma ciência não segue daí que no nosso momento histórico ele deva se preocupar com o estabelecimento de um ambiente acadêmico como uma cópia dos ambientes acadêmicos de outras ciências. Todos sabemos dos efeitos que a excessiva profissionalização pode trazer em detrimento do fluxo de idéias, gerando estagnação. Imaginamos que no presente momento de desenvolvimento e expansão da Doutrina Espírita não temos um ambiente completamente apropriado a efetiva realização dos objetivos de um ambiente puramente acadêmico. Outras considerações sobre essa questão serão feitas em texto futuro.


4. Alguns comentários finais.

Tentamos limitadamente neste texto discutir algumas idéias sobre o conceito moderno (paradigma) de ciência "normal" – bem amadurecida – e o que seria compreensível como uma salutar relação dessa ciência com o Espiritismo. A aplicação padrão dos procedimentos de construção da ciência leva a plena formação e progresso do conhecimento científico. A tentativa forçada de se estabelecer relações – não sugeridas pelo desenvolvimento científico, mas imaginadas como situações idealizadas – não só conduz a perda de tempo como ao descrédito. Da parte do Espiritismo, tentativas forçadas de querer transcrevê-lo ou moldá-lo segundo normas ou procedimentos de outras ciências pode conduzir a ilusão de falsificação da doutrina uma vez que o conhecimento científico e sua interpretação é função de um contexto altamente específico e mutante, mas desconexo em relação a ela. Por outro lado, querer misturar conceitos de outras ciências com princípios espíritas não é científico, pois dentro da noção de paradigma cada um deles deve ser entendido dentro de seu contexto de pesquisa (ambientação acadêmica) não se permitindo enxertias ou fusões ainda que muito bem intencionadas.

Aprendamos a ver cada ciência – o Espiritismo entre elas – como linguagens a respeito do mundo. No procedimento de comunicação normal, plena compreensão só é conseguida quando o emissor e o receptor dispõem de bagagem lingüística comum. Todo e qualquer procedimento de tradução leva necessariamente a perda de significado pela impossibilidade de se transcrever plenamente determinados conceitos e idéias típicos de um determinado referencial lingüístico. O Espiritismo é uma linguagem a respeito do mundo espiritual, criada e desenvolvida para transmitir conceitos sobre esse mundo. As ciências materiais são linguagens distintas que tratam de outro cenário, embora o "palco" apresente áreas comuns ou adjacentes que no momento não dispomos de linguagem apropriada para descrever.

Entretanto, a própria evolução das ciências levará a criação de uma linguagem comum em futuro incerto (talvez distante para o nosso calendário). Esperamos que quando esse futuro acontecer, o Espiritismo tenha cumprido em sua totalidade seu papel fundamental que é o de promover a efetiva reforma moral em todos os Espíritos que dele tiverem se aproximado buscando consolo e refazimento moral.


Agradecimento

Agradeço ao Alexandre F. da Fonseca pela leitura e comentários a esse texto.


Referências
[1] A. F. Chalmers, "O que é ciência afinal ?", (1993), Ed. Brasiliense.
[2] A. Kardec, "A Gênese", Uranografia Geral, o espaço e o tempo (Cap. VI). Ed. Federação Espírita Brasileira, 34a edição (1991).
[3] A. Kardec, "O Livro dos Espíritos", Trad. Guillon Ribeiro, Ed. Federação Espírita Brasileira, 71a edição (1991).
[4] Referência [3] , questão 34.
[5] A. P. Chagas, Polissemias no Espiritismo, Revista Internacional de Espiritismo, pp. 247-49, Setembro de 1996.
[6] Referência [3], Cap. III.
[7] I. Ferreira, "Novos rumos à medicina", Vol. I, Tratamento dos processos obsessivos no Sanatório Espírita de Uberaba, Edições Federação Espírita do Estado de São Paulo (1990).

1 Para uma introdução básica ao assunto ver [1] .

2 Essa imutabilidade não deve ser entendida com a rigidez dos dogmas. Há um conjunto de regras muitas vezes não explícitas que protegem o conjunto de princípios de modificações mal justificadas.

(Retirado do Boletim GEAE Número 472 de 16 de março de 2004)

25 março 2012

Gratidão - Um novo olhar sobre a vida - Geraldo Campetti Sobrinho

Gratidão - Um novo olhar sobre a vida

Vida, Natureza, família, semelhante, trabalho, chefe, prova, expiação, dor, sofrimento, enfermidade, saúde, amigo, inimigo, alegria, tristeza, situação financeira são alguns exemplos dos motivos de gratidão ou reclamação de nossa parte.
Qualquer coisa pode ser razão para agradecer ou reclamar, a depender do ponto de vista.
Costumamos reclamar de tudo.
Quando chove, reclamamos do mau tempo; quando faz sol, reclamamos porque está quente; quando é noite, gostaríamos que fosse dia; quando é dia, nos incomodamos pelo desejo de que a noite chegue logo; se o tempo passa depressa, reclamamos sugerindo a ampliação do dia para 36 horas; se o tempo é vagaroso, lamentamos pela lerdeza do deus Cronos. Tudo, sem exceção, parece ser motivo para reclamar. Poderíamos continuar escrevendo uma página ou um livro inteiro elencando motivos de reclamação ou exemplos práticos de sua ocorrência.

Vamos fazer o contrário? Agradeçamos por tudo. Até pela dor que nos atinge profundamente. "Bendita a dor, ela é a grande sinfonia que acorda os corações humanos para a Vida Eterna", já dizia meu pai e continua dize ndo até hoje nos seus 80 anos, como informação colhida de fonte oral. Segundo Emmanuel, Guia Espiritual do cândido Chico Xavier, "a dor é um constante convite da vida, a fim de que aceitemos uma entrevista com Deus".(1)

Quando tudo está bem, tendemos a nos esquecer do agradecimento. Mas, a misericórdia divina, reconhecendo nossas necessidades, oferece-nos a dor-expiação, a dor-evolução, a dor-auxílio(2) para que, humildemente, nos coloquemos diante do Senhor da Vida e, em definitivo, consigamos nos libertar de nosso passado infeliz, acordando o homem renovado para o novo mundo de regeneração.

Joanna de Ângelis, a psicóloga espiritual e guia do médium Divaldo Pereira Franco, alerta que a "reclamação é perda de tempo".(3) Realmente, quem reclama está perdendo a oportunidade de agradecer, de fazer algo útil na existência Aquele momento de reclamação não nos leva a resultado efetivo, então, poderia ser absolutamente dispen sado sem que fizesse falta alguma. Não estamos aqui cogitando da avaliação serena e necessária para determinadas situações, ocorrências e circunstâncias que vivenciamos, fruto da nossa iniciativa ou decorrente da ação de terceiros. É importante, sim, avaliarmos para melhorar o que for indispensável à caminhada evolutiva.

A reclamação, pelo contrário, não tem propósito útil. Apenas o da lamentação, que deixa transparecer nosso azedume. Seria melhor que nos silenciássemos, pois o silêncio na maioria das vezes se traduz na melhor das respostas. É como aquela expressão do ditado popular que nos exorta, quando não fomos felizes em alguma afirmação: "Você perdeu uma boa oportunidade de ficar calado".

Vamos exercitar o silêncio quando a vontade de reclamar visitar os escaninhos da mente, provocando-nos para ações menos recomendáveis. Reclamar é feio, denota falta de educação, e, dependendo de como a atitude é manifesta da, ausência de respeito para com o semelhante e, sobretudo, ingratidão para com Deus.

Gostaria de fazer um trato e assinar tacitamente um contrato com o prezado leitor. No dia, temos três períodos claramente delimitados: manhã, tarde e noite. Vamos assumir o compromisso de agradecer pelo menos uma vez em cada período do dia. Agradeceremos: pela manhã ao acordar – cada dia é como se fosse uma nova encarnação; à tarde, quando almoçarmos ou olharmos o crepúsculo ou, ainda, estivermos no trânsito que nos oferece o ensejo de desenvolver várias virtudes, tais como a paciência, a tolerância e a indulgência; e agradeçamos ao final da noite por mais um dia, repleto de oportunidades e desafios para o aprendizado constante. Amanhã, depois de amanhã, e depois... A atitude deverá ser mantida ao longo de todo o mês. Quando este findar, na noite do derradeiro dia, o número de agradecimentos chegará a pelo menos 90 vezes!

Acredito que, após esse período, já teremos adquirido o hábito do agradecimento. A partir daí, o comportamento será espontâneo, assegurando que começamos a exercitar um novo olhar sobre a vida.

A reclamação reflete postura de orgulho, ao passo que a gratidão é resultado de atitude humilde.
A reclamação nos fecha para a sintonia com o auxílio superior; a gratidão facilita a sinergia com aqueles que aspiram à harmonia e ao equilíbrio dela decorrente. A gratidão é um ato que transparece a divindade existente em cada um de nós. Já a reclamação é de nossa responsabilidade, sobre a qual deveremos prestar as devidas contas no momento em que a lei de causa e efeito nos requisitar para uma entrevista com Deus.

Se analisarmos detidamente, chegaremos à conclusão de que a vida nos oferece muito mais motivos para agradecer do que para reclamar. Agradecer faz bem à saúde integral do indivíduo, que se sente mais aberto à sintonia com o Plano Superior da Vida, em contato com os amigos espirituais que podem ter o trabalho de inspiração facilitado pelas vias da nossa intuição a ser colocada, gradativamente, à disposição do serviço no bem.

Agradecer nos torna felizes, pois aprendemos a enxergar novos horizontes. Os nossos olhos brilham mais, identificando-se com o belo, o bom, o útil. Agradeçamos pelo bem e pela oportunidade de melhoria, pela prova e pela expiação, pela bênção do trabalho e da libertação. Na vida, é recomendável aprendermos a agradecer mais e a reclamar menos.

Referências:

1 XAVIER, Francisco C.Material de construção. Pelo Espírito Emmanuel. São Paulo: Ideal, 1982.

2 Ação e reação. Pelo Espírito André Luiz. 28. ed. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Cap. 19, p. 329.

3 FRANCO, Divaldo P. Desperte e seja feliz. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 6. ed. Salvador: LEAL, 2000

23 fevereiro 2012

OS AVANÇOS DA BIOLOGIA PERANTE O ESPIRITISMO



Os avanços da Biologia perante o Espiritismo 
Jorge Cecílio Daher Jr

            O Espiritismo surgiu em uma época em que a Ciência alcançava notáveis feitos. O final do século dezenove assistia às descobertas das ruínas dos Incas, à decifração dos hieróglifos egípcios e às escavações dos templos gregos; a mecânica impulsionava a indústria com suas descobertas, o microscópio seria o instrumento de perquirição da Biologia e levaria o homem a devassar seu corpo, para curar doenças e buscar suas origens.
            A época de Kardec é a época de Darwin, antecede em pouco a época de Mendel, e é a época da glória da sociedade burguesa, do caldeirão das filosofias de exaltação do homem que nos levaria a duas grandes guerras, sem que perdêssemos a empolgação com as conquistas, tornando a Ciência, definitivamente, possessão do homem, que pretensamente o guindou a pés de igualdade com a divindade.
            Charles Darwin, talvez o homem de Ciências mais notável de sua época, não inventou a idéia que o homem descende do macaco, derrubando a mitologia judaico-cristã da descendência adâmica. Coube a ele muito mais além de concluir que o homem e o macaco tiveram, em alguma ocasião temporal, ancestrais comuns, do mesmo tronco, que depois se diversificariam sob a força natural que coube a ele desenvolver com primazia, a seleção natural. Seleção natural não é a lei do mais forte, mas sim a constatação que os seres evoluem graças a mutações em sua programação, capazes de fazê-los modificar sua interação com o meio externo, tornando-os, nessa interação, mais aptos a sobreviverem. As idéias de Darwin influenciam não apenas a Biologia, mas também a Filosofia, a Psicologia, a Sociologia.
            Muitos se utilizam de sua teoria com fins notadamente racistas e muita polêmica gerou no meio acadêmico o livro A Curva de Bell[1], uma abordagem unilateral e distorcida, que associou a miséria de negros e hispânicos a questões raciais, de seleção de uma raça mais apta, no caso os brancos caucasianos, sobre as demais. Os autores dessa obra esqueceram do grande legado de Darwin, que diz: “Se a pobreza e a miséria de um homem foi causada não pelas leis da Natureza, e sim por nossas instituições, grande é nossa sina.”
         Separados pelo distante tempo interior, pois se Darwin se interessava 
pelo palco da Ciência, o monge Gregor Mendel vivia distante da Academia. Unidos pela visão comum de enxergar questões onde encontramos respostas, Mendel, por seu amor à 
Botânica e acurado senso científico descreveu as leis da hereditariedade e as regras por elas seguidas e permitiu ao homem a estruturação da idéia de transmissão de um sistema de memória capaz de determinar características dos pais aos descendentes, que hoje sabemos estar em sequências de DNA que chamamos genes. A Genética começa com Mendel mas esse ramo do conhecimento científico apenas o descobriu no século XX, apesar de seus trabalhos datarem do final do século XIX, mais precisamente 1885.
            A caracterização que os cromossomas são formados de DNA, e que esse é composto de ácidos nucleicos pareados, que suas sequências formam uma espécie de alfabeto que codificam a formação de componentes das proteínas, gerou-se uma corrida para determinar a forma estrutural do DNA. Coube a Linus Pauling a descoberta que as proteínas tem estrutura tridimensional e algumas delas uma estrutura helicoidal, mas o mérito quanto ao DNA coube à dupla Watson e Crick, que descreveram o DNA como dupla-hélice, que se abre na sua face interior para a “leitura” do alfabeto genético.
         A sequência de nucleotídeos que formam cada um dos vinte aminoácidos essenciais do organismo humano, seguida do avanço na codificação das sequências genéticas e localização dos genes nos cromossomas, abriu as infindáveis possibilidades de pensar e sonhar que a mente humana é capaz. Os genes tornaram-se explicações de tudo o que ocorre no homem, quer em seu organismo quer em sua vida de relação, quer ainda em seu estado mental, sua capacidade de amar, de ser egoísta ou altruísta. Poderosos, os genes foram vistos como o código de Deus nos seres vivos que agora o homem era capaz não apenas de identificar, mas de manipular.
         Conta-nos a mitologia grega que Zeus, o supremo deus do Olimpo, vendo que Prometeu, que criara os homens, detinha enorme prestígio e poder, desceu à terra em seu carro de fogo, e tirou dos homens a luz, num castigo ao titã e às suas criaturas. Em meio à escuridão que reinava, partiu em rota ascendente ao Olimpo, mas Prometeu, com um graveto, rouba o fogo do carro de Zeus, devolvendo aos homens aquilo que lhes havia sido tirado. Os deuses ficaram furiosos e prepararam vingança. Coube a Afrodite criar Pandora, uma mulher belíssima que trazia em suas mãos uma caixa, onde todas as pragas que abateriam os homens estavam comprimidas, saindo assim que fosse a tampa retirada. Não aceitando o presente de Afrodite, Prometeu, cujo nome significa o que pensa antes (de agir), talvez não imaginasse que seu irmão, Epimeteu, que significa o que pensa depois, ficasse encantado com Pandora e pedisse o presente a Afrodite. Epimeteu recebeu Pandora e sua caixa, que, depois de aberta, espalhou sobre os homens todas as pragas e maldições ainda hoje conhecidas e que nos afetam. Da caixa de Pandora, a última a sair será a Esperança.
         Impossível não relacionar o presente recebido por Epimeteu, principalmente a caixa que Pandora trazia, com o momento em que vivemos no que tange às conquistas da Biologia. Desde a década de sessenta que a genética molecular alcança progressos incríveis no diagnóstico de doenças raras, desde o período intra-uterino. Muito se fala em tratamento gênico de doenças, bastando identificar o gene deficiente e substituí-lo. Até hoje, mesmo conhecendo os genes de doenças letais, ainda não se foi capaz de promover terapia gênica adequada. Muita expectativa se criou entre os portadores de Fibrose Cística, mas ninguém foi curado por terapia gênica.
            Para entender um pouco da caixa de Pandora e tudo que dela sai afetando os homens de ciência,  os colegas médicos da Associação Médica Católica da Inglaterra e Gales chamaram nosso momento na Biologia de “o homem brincando de ser Deus”.
            Desde a década de 50 os investimentos na Genética Molecular são 
enormes, não faltando verbas de pesquisas e isso propiciou a capacidade de sequenciar e manipular genes. À época do projeto Genoma Humano, especulava-se muito sobre as descobertas que estariam no cromossoma 22, pois dali sairia a cura da Esquizofrenia, a doença mais cara do mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Nada se descobriu, para a frustração de muitos cientistas. Isso não impediu de sequenciar-se genes importantes e outros ainda pouco conhecidos. Questão de grave impacto, quando tratamos de manipulação gênica, é a evidência de que permanece vivo o Eugenismo, que é a tentativa de aprimoramento da raça humana. Essas idéias marcaram dolorosamente o homem durante o Nazismo, quando atingiu o clímax no sacrifício de milhares de judeus, na quase erradicação dos povos ciganos, no uso de cobaias humanas em experiências somente permitidas com animais.
            A eugenia é uma idéia atuante na mente de alguns brilhantes cientistas que, ou não se apercebem do risco, pelas consequências que o homem já experimentou, ou simplesmente desconsideram qualquer risco em favor de seus ideais. O racismo em estudos científicos sempre foi encoberto por elaborações estatísticas complexas, que manipulam dados em favor de determinado objetivo, ou é encoberto por visão culturalmente compassiva. O conhecido psiquiatra forense italiano, que se consagrou no Espiritismo a partir de sua conversão, Césare Lombroso, defendia que os criminosos tinham um crânio típico, menor em volume, que se apresentava exteriormente pela fronte pequena, mãos e pés grosseiros e sulcos faciais acentuados. Assim eram os criminosos que Dr. Lombroso conheceu, alguns cérebros que analisou, mas são características de uma população que vivera à margem de qualquer conquista social na Europa do século passado.
            Hoje a Eugenia está presente nas propostas de concepção a partir de Fertilização In Vitro após cuidadosa análise genética dos embriões, descartando os menos aptos em favor dos que são chamados de amostra selecionada pelos profissionais comprometidos com a venda de descendentes perfeitos. Fazem às avessas aquilo que a Natureza faz de modo aleatório, escondendo uma sabedoria capaz de ser analisada apenas sob as vistas da Moral, despida de moralismo barato, mas sustentada por uma visão que garanta ao homem a autonomia e a dignidade desde as formas iniciais de vida.
            Autonomia e dignidade devem ser respeitadas no homem desde sua fase embrionária, faz com que a manipulação gênica de embriões fira profundamente esses princípios chave da Bioética? Caso consideremos o embrião como dotado de vida, a partir de quando isso se dá legalmente? A Inglaterra, tentando manter-se à frente em tecnologia de manipulação gênica de embriões, publicou texto regulatório chamado “The Human Tissues and Embryo Bill”, em 2006, que permite a qualquer tempo a manipulação de embriões e células-ovo, criação de quimeras, embriões transgênicos e clonagem de embriões humanos, com fim unicamente científico, sem se preocupar com qualquer questão ética.
            Ao manipularmos genes de embriões, buscando aprimoramento de raças, gerando vidas que são sacrificadas a centenas para preservar uma vida, até que ponto nos comprometemos nessa brincadeira de fazer de conta que somos Deus? É inegável a necessidade do aprimoramento científico, mas não justifica o sacrifício de vidas humanas quando alternativas outras são visíveis e viáveis. O simples fazer para mostrar-se ao mundo lembra-nos muito a sentença do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo no mundo é vaidade, não existe nada de novo sob o sol”.
            O Espiritismo traz o conceito transcendente de vida, que não se inicia 
no berço, nem se encerra no túmulo. Se a visão muçulmana, expressa pela Shari’ah Perspective on Stem Cells Research[2], permite a manipulação gênica de embriões por entender que a alma se liga ao embrião a partir do 40º dia, muito ainda tem a Ciência a avançar, inclusive para determinar quando a ligação do espírito com o corpo efetivamente se dá no estrito senso da palavra ligação.
            Os genes não transmitem caráter, não dão as características da alma. Quando o projeto genoma demonstrou que temos poucos genes a mais que os animais vulgares, como camundongos, muitos deixaram o queixa cair. Aqueles que afirmaram em alto e bom tom: “Dêem-me o programa genético que farei um homem”, pouco falaram, agora já sem o tom bravatoso. Muitos pensaram ter descoberto o Espírito, não para exaltá-lo, mas para rebaixá-lo a epifenômeno, não do cérebro, mas resultante dos genes. Caindo na realidade, a programação genética serve apenas para estocar informações para o maquinário celular. Ela não explica as sinapses cerebrais, pois precisaríamos de um número de genes três vezes maior que o contido em nosso DNA para justificar as sinapses já conhecidas, que contam-se a menos de um terço das que possivelmente existam. DNA é molécula encontrada em células mortas, não significa vida, tanto é que é encontrada em fósseis. DNA sem o maquinário celular nada pode fazer além de fornecer informações, como uma estante que carrega livros, estoca códigos. Quem faz o que conhecemos biologicamente por vida é a célula, esse ser microscópio quem utiliza as informações dos genes no processar de seu metabolismo.
            André Luiz, em seu livro Evolução em Dois Mundos, dá ênfase à célula, um non-sense na opinião de muitos, um anacronismo, na opinião de outros, mas uma sabedoria, na opinião de poucos. Naquela obra, afirma o autor que no campo de estudos a que ele se filia, 
naquele estágio de conhecimento que se encontravam, estavam eles 
estudando a estrutura mental da célula.
            Para ilustrar um pouco as repercussões da capacidade obtida, que são extremamente complexas, comecemos com o episódio ocorrido com o casal do estado do Colorado, nos EUA, pais de uma filha que apresentava Anemia de Fanconi. Essa doença rara e grave é passível de cura através de transplante de medula óssea, mas o sucesso dobra de 40% para 80% quando o transplante é feito a partir de células do cordão umbilical de doador plenamente compatível. Os pais de Molly haviam tentado, através de Fertilização In Vitro, por quatro anos, um embrião geneticamente compatível para salvar Molly. Adam Nash nasceria após ser o escolhido entre 15 embriões, o único capaz e fornecer as células do cordão umbilical que salvaram Molly[3]. Mais de 900 testes genéticos foram realizados nos embriões e 14 deles foram descartados em detrimento do embrião perfeito, capaz de fornecer células de cordão umbilical para a menina doente.. O que serve de reflexão é que uma apurada técnica obtida a partir de sérios e prolongados estudos, permitiu que, para salvar-se uma vida, mais de uma dezena de embriões fossem gerados, testados e sacrificados, pois apenas um foi implantado e mesmo assim com a finalidade única de servir como doador de células-tronco capazes de dobrar a taxa de sucesso na tentativa de cura de sua irmã. Por mais que o médico responsável por esse tratamento diga que o sucesso obtido justifica qualquer sacrifício, mesmo de vidas, não se pode deixar de lembrar que estudos mostram que células-tronco obtidas de adulto podem se diferenciar e se comportar adequadamente, além do que já existem bancos de cordões-umbilicais, extraídos de fetos gerados com os fins habituais ou acidentais, que podem fornecer material àqueles que são compatíveis imunologicamente.
            Outro caso que chamou a atenção da mídia, encontrando repercussão, foi o de uma jovem mulher, de pouco mais de 30 anos, portadora de grave síndrome neurológica, de origem genética, que submeteu-se à Fertilização In Vitro, gerando um número grande de embriões, que foram geneticamente testados para a doença que a mãe era portadora, e os afetados foram descartados, os pouquíssimos preservados foram congelados para uso futuro, pelo desejo ardente dela de deixar descendentes.
            Os testes genéticos muitas vezes são oferecidos como um pacote para descobrir-se as doenças que acometerão o indivíduo no futuro, numa clara enganação de incautos, quer pela imprecisão dos testes, quer pela não seleção dos testados, quer pelo desconhecimento que o gene não gera por si só a doença. Muito se tem explorado, muito dinheiro tem sido gasto para alimentar pavores infundados ou certezas cada vez mais incertas, em nome do ganho, da celebração da fama.
            A genética nunca esteve em tamanha evidência entre os leigos e não iniciados quanto a partir de 1997, ano em que foi anunciado, na 
Escócia, o nascimento de Dolly, primeiro ser vivo clonado através de 
uma técnica chamada Transferência de DNA. Os cientistas recolheram o material genético da mãe de Dolly e implantaram em células mamárias cujos núcleos foram esvaziados visando receber o material que formaria Dolly. A equipe do Dr. Willmutt formou 277 embriões e apenas um mostrou-se capaz de desenvolver, no caso a ovelha tão famosa.
            Com Dolly o vislumbre de clonar-se humanos passou a tornar-se realidade quase palpável. Número crescente de publicações dão conta da clonagem de vários animais de laboratório, a partir da transferência de DNA, gerando já uma estatística de taxa de sucesso de 2%, com um gritante fracasso de 98%. Interessantemente, desses 2% de sucesso, um número grande deles apresenta doenças graves e já são descritas pelo menos 150 doenças entre os animais gerados por clonagem através da transferência de DNA. O porquê da alta taxa de fracasso ainda não se sabe. Se o clone humano virou realidade entre nós, brasileiros a partir de novela global, a China anunciou, mesmo antes do médico italiano Severino Antinori, que tinha dez clones humanos. Estabeleceu-se uma corrida para saber-se quem será o primeiro a mostrar seu clone humano, um troféu que terá o prêmio não apenas da opinião pública, mas o grave peso político.
         A técnica que fez gerar Dolly é aparentemente simples, mas a pífia 
taxa de sucesso mostra como é complexo o processo. Quando o 
espermatozóide funde-se ao óvulo, descarregando seu material genético a fundir-se com aquele da célula receptora, esse par de cromossomos diferentes entre si, partindo de um estado de repouso engendra no mecanismo celular um processo de rápida multiplicação celular, o que virá a ser um embrião.
            Esse processo de reprodução a partir de cromossomas em repouso garante um risco mínimo de alterações nos cromossomas que, em alguns casos, geram doenças como a Síndrome de Down e em outros são incompatíveis com a vida. Na técnica de clonagem, uma célula receptora tem seu núcleo vazio preenchido pelo material genético do doador. Não se tem garantia de que esses cromossomas estão em estado de repouso e o fato de se ter uma probabilidade elevada de estarem atividade, faz surgir o alto índice de fracasso e, mesmo nos poucos casos de sucesso, o risco de alterações cromossômicas é grande. Isso nos leva fatalmente à pergunta para mais essa questão saída da caixa de Pandora, supondo o sucesso e a aceitação plena da clonagem humana, que tipos de desenvolvimento anormal deveremos aceitar? Aceitar para quem?
            Não esqueçamos que não estamos formando um objeto, mas estamos diante de uma vida humana que surge. Ainda refletindo sobre o que vai saindo da caixa de Pandora, superando essas questões graves sobre o desenvolvimento do embrião humano clonado, caímos em questões éticas mais graves. Se uma mãe tem um filho morto em acidente, mas dele é retirado tecido vivo, qual o limite a ser aplicado ao desejo dessa mãe em fabricar um clone dessa criança? Por mais que saibamos o processo gera corpos, e não espíritos, como mais adiante iremos debater, se é válido o desejo de substituir o filho morto por um geneticamente quase idêntico, será válido o desejo de outra mãe querer ter um filho sobressalente congelado no nitrogênio líquido, pronto para vir ao mundo após implante em um útero receptor, em caso de morte ou doença grave do original? Existe fronteira demarcada entre o desejo de uma e de outra?
         Continuando o raciocínio, um homem casado, pai de três filhos, por 
algum motivo é levado a clonar um embrião a partir de seu material 
genético, quem serão os pais de direito da criança, uma vez que 
geneticamente os pais seriam os pais daquele que forneceu o material 
genético. Essa criança não terá irmãos genéticos, pois não 
compartilhará da mesma carga genética dos filhos de sua matriz celular. Terá ele poder 
sucessório sobre o doador caso a esposa dele, o doador, não consinta com a adoção?
            Clonar seres humanos com finalidades reprodutivas tem gerado tanto problema atualmente que quase já não se fala nesse tipo de clonagem, não ser nas saudades da novela, pois a moda agora é falar-se em clonagem terapêutica, a utilização da clonagem para que se formem 
doadores de células-tronco, que se transformarão em qualquer tecido ou órgão humano. Chama a atenção que, em Março de 97, um mês após o anúncio de Dolly, o Senado Norte-Americano convocou reunião através de um comitê específico de Saúde pública, seguindo também a convocação presidencial e a instalação de um Comitê Nacional de Bioética. Tratando de clonagem reprodutiva, representantes das indústrias de biotecnologia anunciaram que não tinham interesse na clonagem reprodutiva, mas na utilização da técnica para clonagem terapêutica, para a fabricação de órgãos.
            Como falamos de indústrias, falamos de venda de tecnologia, ou seja de um comércio de seres vivos. O processo de clonagem terapêutica visa formar embrião de cerca de oito dias de vida, onde se apresenta a fase de blastocisto, momento em que o embrião está repleto de células-tronco, objeto dos almejados transplantes de órgãos. Até aqui o processo é o mesmo da clonagem reprodutiva, mas a partir dessa fase o embrião tem seu desenvolvimento interrompido, passando a ser apenas um rico banco de células. Como cada célula se diferencia em tecidos específicos não se sabe, mas já foi possível fabricar-se tecido renal implantando-se células-tronco em rim de bovinos. Essas células desenvolveram-se formando um aparelho renal. Detalhes do processo pelo qual ocorreu ainda é uma incógnita.
            O que é também grave é o fato que a clonagem terapêutica será oferecida a um 
custo, pois é uma técnica que está sendo desenvolvida com fins 
puramente comerciais, acima da questão humanitária, além do que, saindo mais um problema da famosa caixa, cumpre-nos questionar a questão venda de órgãos, no já existente mercado de órgãos humanos.
            Quem não se lembra da prostituta de “Os Miseráveis”, que, para manter 
a filha após o desemprego, vende inicialmente seu corpo, uma vez 
adoecida, vende seus cabelos e, por fim, os dentes. Victor Hugo acenava para um mercado real, que hoje existe sob a forte condenação dos preceitos éticos, mas que tende à legalização através do reconhecimento de patentes, não de órgãos ou células humanas, pois são proibidas, mas de técnicas de clonagem, de armazenamento de embriões e de manipulação desses embriões para o desenvolvimento de órgãos e tecidos.
            Um número crescente de transplantes de coração se dá pelas 
consequências dos processos isquêmicos, como a doença arterial 
ateromatosa, que gera angina, infarto e insuficiência do coração. As 
causas desses problemas são multifatoriais, a incidência deles é 
crescente, apesar das várias intervenções sobre a população, ao longo 
dos anos. Ter a possibilidade de um coração reserva a desenvolver-se se necessário for é consoladora talvez, mas nos lembra muito o caso de Molly, que teve a vida salva por seu irmão, que apenas nasceu para esse único objetivo, fato de relevância moral, existir para curar outro, não por ter sido desejado como pessoa.
            Os transplantes de órgãos realizam-se com uma taxa de sucesso 
importante, chegando, no caso de transplante de rins, a uma sobrevida 
de 85% em dez anos, isso desde a década de 80, graças à descoberta de uma substância imunossupressora chamada Ciclosporina. Essa droga revolucionou os transplantes, mudou todos os parâmetros de sobrevida.
            Os argumentos a favor da clonagem terapêutica pesam pela escassez de doadores em todo o mundo mas o peso de se usar órgãos como mercadorias os prudentes, engana os afoitos. Continuando a sair da caixa, mais uma questão se põe à reflexão: uma vez desenvolvida a técnica de clonagem terapêutica, é justo que toda a população tenha um clone como reserva técnica de órgãos? Aqueles que já nascerem com problemas não podem fazê-lo, pois o clone também teria problemas, mas não seriam esses com predisposições e doenças genéticas os que mais seriam favorecidos com o transplante de órgãos obtidos a partir de células-tronco? Para confundir um pouco mais, estudos de há poucos anos mostram que pâncreas transplantados a pacientes diabéticos também desenvolveram diabetes, após 11anos, em 100% dos casos. Com órgãos fabricados a partir da reserva de um embrião clonado teriam destino diferente? Infelizmente, creio que a resposta ainda é não. Continua aberta a caixa de Pandora, dela saindo todas as pragas e males que o homem poderia experimentar. Todavia, lembra-nos a Mitologia que a última coisa a sair da caixa que trazia a bela Pandora era a Esperança. Apesar de todos os males, de todas as pragas, deveria por último dali sair um sentimento de renovação, mostrando que os deuses do Olimpo não condenaram perpetuamente a humanidade e que o mito de Pandora talvez seja o mito da ciência moderna. Para nós, essa Esperança tem nome, poderíamos chamá-la de Consolador, sem que carreguemos o rótulo religioso, mas ampliando sua perspectiva a todos os movimentos de regeneração surgidos na Terra, desde o final do século XIX e unificados pelo Espiritismo.
            Cabe à Ciência Espírita o estudo do Princípio Espiritual e sua relação com o Mundo Espiritual, sendo a mediunidade um instrumento para se alcançar esse fim. Assim nos diz Allan Kardec em A Gênese, ao tratar da aliança da ciência material com a ciência espírita. Ao distinguir duas ciências, pois utilizam elas meios, materiais e métodos totalmente diferentes, não quis Allan Kardec separá-las, mas vislumbrava a união dessas fontes de saber, que trariam ao homem não somente o conhecimento de si mesmo enquanto ser biológico, mas de suas origens, sua destinação final, seu real objetivo na Terra. O Codificador percebeu que a Ciência teria um limite, que não avançaria além das leis materiais e a aliança com a Ciência Espírita, que trata do que está além da matéria, seria a instrumentação que propiciaria o conhecimento pleno e útil ao homem. Mas a tão esperada aliança entre as ciências espírita e material ainda não ocorreu.
            Especificamente na questão da clonagem, que causa espanto a muitos, como se relaciona o princípio espiritual com o corpo que se forma? Existe total identidade entre clone e doador? O que transmitem os genes, realmente? A idéia que transmitimos pelo sangue características não apenas do corpo, mas também as características da alma, sempre esteve presente entre os homens e passou a se fazer mais forte desde o final do século XIX, reforçado pela Ciência, a mãe de todas as descobertas que impulsionaram o homem ao auge conquistado no século XX e ainda hoje desfrutado. O romance do genial Charles Dickens, chamado Oliver Twist é exemplar modelo dessa idéia.
            O primeiro encontro de Oliver Twist e o pequeno trapaceiro Jack 
Dawkins numa rua de Londres mostra o contraste entre eles. Oliver, 
filho de nobre donzela, deixado órfão em uma instituição, apesar de 
criado sem qualquer requinte de educação, longe das finezas da corte, 
e, ressalta o autor, sem qualquer manifestação de amor, tem a postura 
digna, a face fina, de nariz afilado, cabelos louros e cacheados e, 
muito mais, a inata postura nobre, não arrogante, porém recheada pela 
honestidade, pelo brio do caráter, pela força do espírito. O jovem 
menino de rua, ao contrário, tem a face grosseira, nariz achatado, como 
qualquer menino de rua. O romance mostra que Oliver, em sua jornada ao encontro de suas origens, tem essa postura nobre herdada pelas características de seu sangue, pois é nobre como os pais, que transmitiram a ele esse poder, o poder da natureza, contra a natureza. A idéia que transmitimos características muito além de físicas,  mas morais, através de nosso sangue persiste ainda hoje, mas já não chamamos mais de sangue nobre, mas, talvez, de genes nobres.
            Existe um estudo onde o caule de uma planta mãe foi dividido em três porções e cada uma dessas partes plantadas em altitudes diferentes. Essas plantas eram clones da planta original, que serviu de modelo de comparação. A depender da altitude, as plantas reagiam de modo diferente, gerando plantas outras distintas em maior ou menor intensidade em relação à matriz.[4]
         Outro ponto de estudo interessantíssimo é o da evolução dos 
rinocerontes. Temos dois tipos de rinocerontes, que surgiram no mesmo período cronológico, um na África, que tem dois chifres no nariz, outro na Índia, que tem apena um pequeno chifre em seu nariz. Partiram da mesma matriz e não se explica a diferença entre eles por alterações em seus genes. O que está além dos genes e nos toca diretamente o sentido, chama-se fenótipo. Por fenótipo podemos descrever todas as palpáveis, mensuráveis do ser vivo, as plantas geneticamente idênticas têm fenótipos distintos, o mesmo se dá com os rinocerontes. O que faz a diferença de resultados entre o que seria esperado para determinado genótipo e o fenótipo efetivamente encontrado é chamado pela ciência de normas de reação.
            Essas normas de reação são as alternativas de resultados oferecidos ao genótipo, que podem ser totalmente distinto do esperado. Se ainda não se pode descrever os fatores responsáveis pelas normas de reação que interferem no genótipo para a formação de fenótipos (seres!) distintos, permitam-nos especular, vamos buscar no 
Princípio Espiritual, objeto da Ciência Espírita, a causa! Ao campo mental das células, que já é um fator a determinar normas de reação distintas, sobrepõe-se o campo mental do espírito, expresso através do perispírito que, ao reencarnar, impõe sua programação própria, sua identidade. Esse ser complexo, descrito como energético por partilhar de leis sutis e interferir nas leis biológicas que regem o corpo físico, influenciado por essas leis enquanto reencarnado e no instante mais ou menos longo da desencarnação, serve de molde, não de cópia, para comportamentos celulares únicos, no campo hoje limitado da genética.
            Os estudos do Dr. Ian Stevenson, principalmente seu último livro, chamado A Biologia em Face da Reencarnação, mostram a ocorrência de marcas de nascença, que ocorrem no ser reencarnante sem substrato genético, relacionando com eventos que geraram a morte traumática do ser, em reencarnação imediatamente anterior. O Dr. Ian Stevenson publicou o trabalho com o peso de um autor consagrado no meio científico, respeitado pela seriedade de seus trabalhos, ocupando dois volumes de obra extensamente documentada.
            Mais que fatores genéticos a influenciar nos resultados do fenótipo, 
existem características humanas como a linguagem, o comportamento, as emoções, que não são transmitidas geneticamente. O clone de um 
brasileiro criado no Japão, falará japonês, pois a linguagem não é 
transmitida pelos genes. Sua capacidade mental será única e poderá ser totalmente distinta de seu molde, pois as sinapses cerebrais não 
obedecem modelos genéticos para seu desenvolvimento. Mais que isso, o clone poderá apresentar doenças que jamais serão apresentadas pelo molde, uma vez que alterações estruturais nos cromossomas são muito plausíveis de ocorrer em clones.         O Espírito é elemento constitutivo da Natureza e anima as formas materiais dos seres vivos, inicialmente como princípio espiritual, mas nas formas humanas encontram a plenitude do que entendemos por marcas do Criador em cada criatura, de forma mais vibrante e desafiadora, somente no homem o princípio espiritual torna-se Espírito com conotação moral, pois somos seres morais. Se temos a de gerar e aprimorar corpos, não temos a capacidade de gerar espíritos. A primazia sobre o corpo não é obtida através dos genes, mas a partir do corpo espiritual que o espírito reencarnante traz. Ainda que tentemos aliviar doenças, porque algumas doenças são perfeitamente evitáveis, talvez estejamos distantes da capacidade de aliviarmos sofrimentos. O ser não sofre porque adoece ou tem a morte próxima.
Esse erro é da visão utilitarista da sociedade ocidental, desenvolvido nos últimos 60 anos. Paradoxalmente, a necessidade de erradicar-se toda forma de sofrimento, desde as mais legítimas, que dizimam pela miséria vidas inocentes, até as mais bizarras, que visam retardar o envelhecimento e prolongar a vida no corpo, vendem a idéia de que tudo o que é contrário ao bem estar físico é causa de sofrimento. Os espíritos amigos, tratando da medida da felicidade que podemos obter, lembram-nos, em O Livro dos Espíritos, que temos um senso que diz o que é abuso, que são nossos sentidos. A comida excessiva, que às vezes gera prazer, é causa de doenças que matam mais que a fome; as emoções obtidas por experiências quase extremas, desequilibram a homeostase; a necessidade de ser feliz, traduzida pelo consumo de bens pouco duráveis, pelas aparências que não enganam a si mesmos, por não viver conforme as próprias convicções, ou não ter qualquer convicção própria, geram a depressão e a demência.
            Ante as pragas saídas da caixa de Pandora, calmamente espera o Espiritismo sua vez de ser auscutado pelos homens, pois é o hino de esperança a lembrar-nos que nossa pátria verdadeira não se conta entre os limites do mundo físico, que somos essencialmente espíritos, que nossos corpos são sagradas vestes, mas apenas vestes que teremos de despir quanto estiverem rotas e sem serventia.



[1] Herrnstein R.J. , Murray C, The Bell Curve, 1994, Free Press
[2] Shari’ah Perspective on Stem Cells Research, citada em http://www.islam101.com/science/stemCells.htm
[4] Lewontin R., The Triple Helix, 2000, Harvard Press

06 fevereiro 2012

NAS FRONTEIRAS DA EPILEPSIA - Dr. Nubor Facure


Dostoiewisk e Machado de Assis, portadores de epilepsia, utilizaram-se de protagonista de seus romances para descreverem suas próprias crises. Vultos ilustres da História tiveram epilepsia, mas, para o homem comum, é na sarjeta das ruas que ele costuma tomar contato e se amedrontar com a violência da crise convulsiva.

Embora Hipócrates tenha feito em seus escritos uma brilhante descrição da crise do Grande Mal, indicando o cérebro como o responsável por toda essa sintomatologia, a Epilepsia foi tida como uma doença mental pelos séculos afora e só depois do surgimento da Neurologia, no século passado, é que a Epilepsia passou a ser compreendida com uma síndrome decorrente de uma lesão orgânica no cérebro.


Hoje entende-se a epilepsia como uma descarga elétrica desorganizada que atinge os neurônios cerebrais, provocando sintomas correlacionados com a área cerebral afetada.

Embora os relatos mediúnicos do porte de No Mundo Maior e Nos Domínios da Mediunidade ditados pelo Espírito André Luiz, façam descrições inconfundíveis de sintomatologia epiléptica em seus protagonistas, submissos à interferência espiritual francamente obsessora, a medicina de hoje rejeita qualquer presença espiritual na gênese de crises epilépticas, especialmente pelo temor de ver ressurgir a nefasta participação de "demônios" dos antigos textos bíblicos, versão da qual a Idade Média e a Inquisição souberam tirar proveito.
Os exames sofisticados de hoje identificam os traumas, as infeções, os tumores e as degenerações entre diversas outras causas de natureza orgânica para a etiologia da Epilepsia, entretanto, nenhum desses exames está apropriado para detectar as vibrações do plano espiritual que nos fariam compreender mais profundamente a natureza essencial do problema da Epilepsia.

Nem sequer de longe pretendemos excluir a gênese cerebral da manifestação epiléptica, mas a visão exclusivamente materialista da Medicina tradicional a envolve de um obscurantismo estúpido que não lhe permite identificar um outro universo de interferência situado na dimensão espiritual que, como causa ou como agravante, interfere na freqüência e na constelação de sintomas que o epiléptico manifesta.

Negando a interferência do Espírito, a Medicina não consegue enxergar que, através do próprio estudo da Epilepsia, ela teria muito o que aprender, por exemplo, com o que os pacientes epilépticos vivenciam durante as chamadas "crises psíquicas", nas quais observa-se uma riqueza de expressão clínica cognitiva, que o simples desarranjo de neurônios em "curto-circuito" não tem argumentos para justificar.

Na classificação das crises epilépticas, a Neurologia destaca um tipo de crise chamada Crise Focal ou Parcial em que não há comprometimento da consciência e a sintomatologia será decorrente do local no cérebro afetado pela descarga neuronal desorganizada. Na área motora, o paciente irá apresentar contrações musculares na mão, no braço, na perna ou em qualquer outra parte do corpo correspondente à região motora do cérebro afetado.

Numa área sensitiva, os sintomas serão referidos como adormecimentos, sensações estranhas ou deformações no membro atingido.

No grupo das crises focais é que estão incluídas as crises psíquicas nas quais o paciente relata sensações subjetivas que experimenta espontaneamente, podendo ter duração de minutos, horas ou dias.

As descrições clássicas das crises psíquicas fazem referência mais comumente às crises de "Dejá vú" e de"Jamais Vú". Esses dois quadros são reconhecidos como decorrentes de lesões na base do cérebro na região dos lobos temporais.

No "Dejá vú" (já visto), o paciente relata uma sensação de familiaridade com o ambiente ou com as pessoas, mesmo que lhe sejam estranhas e que ele as esteja vendo pela primeira vez. Num local que lhe seja completamente desconhecido, o paciente, ao ter sua crise, sente uma forte impressão de que já conhece ou já esteve naquele lugar.

Na crise do "Jamais vú" (jamais visto), o paciente manifesta sensação de estranheza em lugares conhecidos ou por pessoas da sua convivência.

Ambas as situações que descrevemos podem ocorrer ocasionalmente com qualquer pessoa normal, mas, no epiléptico, essas sensações são comumente repetitivas e duradouras.

Muitos epilépticos apresentam crises psíquicas freqüentes mas que têm merecido pouco destaque por parecerem corriqueiras, como as mudanças súbitas de humor, um entristecimento súbito ou uma agressividade imotivada e desproporcional que pode beirar a violência.

Neste artigo, estou interessado em relatar outros tipos de crises psíquicas, relativamente raras, em que os próprios pacientes têm muita dificuldade em achar termos adequados para descrevê-las. Elas merecem, ao meu ver, um estudo meticuloso, procurando-se valorizar as verdadeiras sensações dessas experiências subjetivas, que os pacientes procuram nos passar, sentindo inclusive, com freqüência, a incredulidade que a maioria dos médicos manifesta ao ouvi-los.

Os relatos dessas crises, à primeira vista, parecem inconsistentes, inverossímeis, superficiais, misturando-se com os sintomas da própria ansiedade com que os pacientes convivem quando vítimas desse tipo de crise. Elas podem ser muito demoradas e não tem o caráter ictal de subtaniedade das crises convulsivas. Não há uma afetação da consciência mas sim da percepção de funções complexas como da noção de tempo, do espaço, da realidade, do movimento, da noção do Eu e até do pensamento.

Essas várias sensações no nível de vivência psíquica do indivíduo, a mim parecem fornecer preciosa observação da fronteira entre as experiências vividas física ou espiritualmente por esses pacientes.

Uns poucos relatos que fizeram esses pacientes ajudaram-me a confirmar que o mundo mental de cada um de nós transita numa dimensão espiritual que transcende a experiência física.

Um deles é médico, freqüenta meu consultório desde garoto, por ter convulsões decorrentes de neurocisticercose e, recentemente, procurou-me, acompanhado da esposa, com uma certa inquietação, tentando relatar que, nos últimos dois dias, tinha perdido a capacidade de acompanhar a passagem do tempo. Não era a identificação do tempo, das horas ou do dia e da noite. Ele dizia ser uma perda da "noção do tempo". Os acontecimentos processavam-se na sua mente e quando ele se dava conta, esses acontecimentos já tinham acabado de ocorrer. Ao dirigir-se para seu consultório, conduzindo seu carro pela estrada, fazia as curvas, mas sempre com a idéia de que isso não lhe tomava tempo, porque ocorria na sua mente, literalmente falando, antes de acontecerem fisicamente. O que tinha em mente, do trajeto que percorria, não era uma imaginação, era o próprio acontecimento. Dizia que não lhe fazia sentido o antes ou o depois, porque, tudo o que ocorria em seqüência, ele vivenciava ocorrendo simultaneamente. Sua esposa o auxiliava como auxiliar de anestesia e na entrevista me contava que apesar de permanecer o tempo todo com essas sensações que descrevia. Ele procedia normalmente enquanto anestesiava seus pacientes, apenas dizia que toda atitude que tomava já lhe parecia ter ocorrido não como uma premonição, mas com um acontecimento "já feito", se assim podemos dizer, por ele, e, ao terminar a anestesia, para sua mente, os fatos lhe pareciam continuar acontecendo.

A neurologia descreve, também um estado de crise psíquica em que o paciente tem a sensação constante de estar vivendo um sonho. É chamado de "Dreamy States" pelos clássicos.

Tivemos dois pacientes que nos relataram episódios em que sentiam uma alteração no que eles chamavam de "realidade". Uma jovem senhora referia que essas sensações a perturbavam a anos, principalmente à noite e se estivesse perto de muitas pessoas. Isto a deixava insegura. Parecia fazer as coisas por instinto. Insistia em dizer que nas crises tinha a sensação de estar vivendo em um "estágio antes da realidade".

Um outro paciente com crises semelhantes a acrescentava que também tinha a impressão de "não estar vivendo a realidade" e tudo que fazia, para ele, "não tinha conteúdo emocional".

Duas crianças e dois adultos jovens, que já acompanhávamos por antecedentes de convulsões, nos relataram episódios de percepção alterada no movimento dos objetos e do próprio pensamento.

Ouvi deles expressões do tipo: "os movimentos das coisas e das pessoas parecem aceleradas": "quando estendo as mãos para pegar um objeto, parece que meus gestos são muito rápidos"; as pessoas atravessam a rua muito depressa"; "fica difícil atravessar a rua com os carros todos correndo"; "tudo ao redor parece estar acelerado"; "as pessoas parecem falar muito rápido". Um dos garotos dizia ser acordado pela crise. Para um deles, o seu próprio pensamento, quando em crise, parecia acelerado.

Nessas horas ele evitava o diálogo com receio de demonstrar aos outros alguma perturbação. Um desses pacientes, com 23 anos, é pintor e dizia que nas crises sentia que tudo passava lentamente, seus próprios gestos ao lidar com o pincel lhe pareciam ser feito em câmara lenta, embora seus colegas não confirmavam essa vagareza. Ele se sentia assim por mais de uma semana seguida, entrando e saindo das crises sem qualquer motivo aparente.

Uma senhora que também acompanhávamos por ter desmaios, tinha um eletrencéfalo com alterações focais no hemisfério esquerdo e uma tomografia cerebral típica de neurocisticercose. Ela contava que vinha tendo episódios em que parecia se deslocar, sentia-se estar muito longe, "como se num outro mundo", "ocupando um outro espaço". Esses episódios duravam 20 minutos e, a seguir, mantendo-se sempre muito lúcida, ela sentia a cabeça vazia, ficava pálida e ofegante. Outros quadros, mais complexos e às vezes muito elaborados, têm sido rotulados como alucinatórios e comumente relacionados com as disritmias do lobo temporal ou as patologias do sono.

Alguns pacientes dizem sentir-se fora do corpo, sensação que a neurologia chama de "despersonalização". Para outros, os objetos que vêem ou os sons que ouvem, estão aumentados, diminuídos ou distorcidos. Às vezes há uma concentração de cenas e episódios memorizados e o paciente, num relance, recapitula toda a sua existência. Dá-se o nome de "visão panorâmica" da vida.

Tivemos, entre muitos outros, o caso de uma garota de nove anos que nos consultava devido manifestações comuns de epilepsia.

Ela nos relatou que por algumas ocasiões, estando absolutamente desperta, se sente saindo do seu corpo em completa lucidez. Numa dessas últimas crises estava sentada no sofá, assistindo televisão quando, subitamente, se vê, ao lado do corpo físico. Questionei sobres seus medos nesta hora e qual sua atitude ao se ver nessa duplicidade.

Ela respondeu-nos com muita simplicidade que, assustada, procurou se dirigir para perto da televisão para ver se o seu corpo ali sentado a acompanhava.

Os quadros que descrevemos não surpreenderiam qualquer neurologista habituado a atender casos de epilepsia. Seguramente serão atribuídos à presença de distúrbios da atividade neuronal, especialmente do lobo temporal e a maioria deles vai se ver livre dessas crises com medicação disponível para atuar especificamente nas disritmias dessa região.

É curioso, entretanto, que, essas descrições, os relatos de como esses pacientes vivenciam ou "decodificam" a noção do sentido do tempo, da apreensão da realidade, da relação espaço-tempo no deslocamento dos objetos, da síntese e projeção do pensamento, nos permite despretensiosamente conjeturar uma série de semelhanças com certas descrições não acadêmicas na literatura espiritualista.

Os textos especializados em descrições sobre técnicas de meditação, por exemplo, revelam que os "grandes mestres" e "místicos" que atingem os graus mais profundos de interiorização da consciência, fazem interessantes descrições em ralação ao sentido do tempo, ao espaço ocupado pela matéria, à velocidade das partículas de matéria/energia que sintonizam, bem como, o turbilhão do fluxo do pensamento, descrições estas, que ao meu ver, têm correspondência muito provocativa com as dos epilépticos que aqui registramos.

Para nós, espíritas, os conceitos de tempo no mundo espiritual, de espaço na dimensão extra-física, de projeções do pensamento, de deslocamento do corpo espiritual podem ser facilmente reconhecidos nessa série de histórias que registramos. As lesões objetivas que a massa cerebral evidencia nesses quadros são, para mim, nada mais que portas de intercessões entre as duas dimensões, a expressão física de uma realidade que o corpo nos permite palpar e a percepção espiritual que vivenciamos sem os sentidos perceberem.

(*) Núbor Orlando Facure, é médico neurocirurgião e espírita. Director do Instituto do Cérebro de Campinas – São Paulo, ex-Professor Catedrático de Neurocirurgia da Unicamp (Universidade de Campinas), escritor e expositor espírita, foi entrevistado em exclusivo no Brasil pelo Jornal de Espiritismo no Instituto do Cérebro que dirige desde 1987.