19 março 2007

OBSESSÕES COMPLEXAS POR APARELHOS PARASITAS: CONSIDERAÇÕES DOUTRINÁRIAS. Dr. VITOR RONALDO


IVONE A. PEREIRA E MANOEL PHILOMENO DE MIRANDA REGISTRAM OBSESSÕES COMPLICADAS PELA PRESENÇA DE ARTEFATOS FLUÍDICOS DESARMONIZADORES.

Dr. Vitor Ronaldo Costa

(vitorrc@brturbo.com.br)

A questão das obsessões espirituais está longe de ser desvendada em sua totalidade, tamanha a diversidade de mecanismos íntimos responsáveis pelo desencadeamento das mais complexas síndromes defrontadas pelo gênero humano. Muito embora, na visão espírita, tenha-se o conhecimento teórico dos fatores predisponentes das obsessões (vingança e a vontade de fazer o mal por parte dos espíritos focados na crueldade), pouco se conhece a respeito da forma pela qual o processo ganha curso. O modus operandi da obsessão espiritual constitui-se um desafio, pois nem todos os casos decorrem da simples ação hipnótica, da telementação entre o obsessor e a sua vítima.

A obsessão decorrente da sugestão mental foi perfeitamente descrita por Allan Kardec em “O Livro dos Médiuns”, capítulo XXIII1, oportunidade em que o Codificador estabeleceu uma classificação alicerçada na gradação crescente dos efeitos opressivos sobre o encarnado, tais como a obsessão simples, a fascinação e a subjugação. Assim, pode-se dizer que no contexto das obsessões complexas, ou seja, aquelas que ultrapassam os limites da simples sugestão mental, identifica-se um tipo caracterizado pela presença de verdadeiros artefatos fluídicos desarmonizadores inseridos na contraparte astral das criaturas, com a finalidade de produzir, por ressonância vibratória, sintomas estranhos e contundentes, caracterizados por dores lancinantes, limitações funcionais, enfermidades degenerativas, tumorais ou comprometimento mental severo.

Esses “aparelhos”, uns mais simples e de maior tamanho, outros minúsculos e sofisticados, podem ser considerados pontos de partida de um número expressivo de obsessões espirituais graves, daí a importância dos espíritas conhecerem detalhadamente o assunto. Desde a década de 60, a literatura espírita brasileira, coleciona breves informações a respeito do assunto, mais precisamente duas, registradas por autores confiáveis.

Talvez, por se tratar de temática pouco ventilada no contexto doutrinário, a questão tenha caído no esquecimento, pois a pesquisa experimental não é norma no nosso movimento espírita, com raras exceções, a exemplo dos trabalhos desenvolvidos pelos confrades Hernani Guimarães Andrade, Hermínio de Miranda, Lamartine Palhano Jr. e José Lacerda de Azevedo, este último, o grande estudioso das obsessões complexas.

Pois bem. Relembremos, inicialmente, algumas informações canalizadas por médiuns que merecem crédito. A saudosa e respeitada médium Ivone A. Pereira, em sua obra “Recordações da Mediunidade”, 1966 (FEB)2, descreve um caso acontecido em 1930, em que se percebe nitidamente a presença desse “aparelho parasita” responsável por gravíssimas conseqüências. Tratava-se de uma criança com 13 anos de idade, levada pelos pais ao antigo “Centro Espírita de Lavras”, época em que a própria médium servia de intérprete ao espírito do Dr. Bezerra de Menezes. A história clínica pode ser assim resumida. Desde os dois anos, o jovem defrontou-se com deformidades físicas em pernas e braços, acompanhadas da incapacidade de articular palavras. Para todos os efeitos, tratava-se de um caso grave de mudez. A saudosa médium assim relata como o diagnóstico foi feito: “Ao penetrar a sede do Centro, acompanhado pelo pai, os dois videntes então presentes e também eu mesma fomos concordes em perceber uma forma escura e compacta cavalgando o rapaz, como se ele nada mais fosse que uma alimária de sela, visto que até as rédeas e o freio na boca (grifo nosso) existiam estruturados na mesma sombra escura”. Ora, a forma escura montada nas costas do garoto nada mais era do que o seu obsessor, antigo escravo, odiento e vingativo, em virtude do sofrimento que lhe fora imposto pelo seu senhor de então. Todavia, mediante o tratamento espírita, o jovem ficou literalmente curado no espaço de trinta dias. E a médium assim finaliza o seu comentário: “Deslumbrado, o pai do rapaz tornou-se espírita com toda a família, desejoso de se instruir no assunto, enquanto o filho, falando normalmente, explicava, sorridente: 'Eu sabia falar, sim, mas a voz não saia porque uma coisa esquisita apertava minha língua e engasgava a garganta...' Essa coisa esquisita seria, certamente, o freio forjado com forças maléficas invisíveis...”

Observem que se tratava de um caso não resolvido pela medicina tradicional. A evolução prolongada por mais de 10 anos deixara efeitos marcantes no campo físico do jovem, inclusive a mudez aparentemente irreversível. No entanto, o esclarecimento a que foi submetida a entidade espiritual no trabalho desobsessivo e a retirada do freio bucal (aparelho parasita) contribuíram para reverter o inditoso quadro. Demonstração inequívoca de que a terapêutica espiritual, quando bem orientada, quando integrada por tarefeiros altruístas suficientemente treinados e coordenada pelo Mundo Maior, pode amenizar bastante o sofrimento das enfermidades complexas.

Outra referência notável encontra-se na obra “Nos Bastidores da Obsessão”, 1970 (FEB)3, psicografada pelo respeitável médium Divaldo Pereira Franco. No capítulo intitulado “Processos Obsessivos”, pinçamos informações sobre um tipo de aparelho parasita bem mais sofisticado, provido de recursos eletrônicos e arquitetado por um gênio das sombras. Atentem para a transcrição de pequeno trecho feito pelo nobre pesquisador espiritual, Manoel Philomeno da Miranda: “Iremos fazer uma implantação – disse em tom de inesquecível indiferença o Dr.Teofrastus – de pequena célula foto-elétrica gravada, de material especial, nos centros da memória do paciente. Operando sutilmente o perispírito, faremos com que a nossa voz lhe repita insistentemente a mesma ordem: 'Você vai enloquecer! Suicide-se!' Somos obrigados a utilizar os mais avançados recursos, desde que estes nos ajudem a colimar os nossos fins. Esse é um dos muitos processos de que nos podemos utilizar em nossas tarefas... Estarrecidos, vimos o cruel verdugo movimentar-se na região cerebral do perispírito do jovem adormecido, com diversos instrumentos cirúrgicos, e, embora não pudéssemos lograr todos os detalhes, o silêncio no recinto denotava a gravidade do momento.”

A análise dos dois casos citados é suficiente para que se fique alerta quanto à possibilidade das obsessões complexas. No primeiro exemplo, a ação patogênica foi desencadeada por um aparelho rudimentar, em forma de freio eqüino, fixado na parte interna da mucosa bucal, a dificultar o desenvolvimento da linguagem. Era um tipo de aparelho parasita, a bem dizer, grosseiro, forjado com fluídos densificados, mas muito bem implantado na estrutura anatômica do perispírito, correspondente à boca no campo orgânico. Caso tal artefato fluídico não tivesse sido diagnosticado pelos médiuns videntes e retirado naquela oportunidade, certamente o problema da mudez não teria sido corrigido. No segundo caso, esse aparelho, como ficou visto, era muito mais delicado, de tamanho reduzido, auto-funcionante, inserido cuidadosamente por meio de cirurgia em área nobre do encéfalo, com a finalidade de emitir sugestões subliminares contínuas até romper o equilíbrio psíquico da pobre vítima e levar-lhe à loucura total e ao suicídio.

Observem ainda um outro pormenor, importante fator diferencial na técnica de investigação dos citados casos. Quando os médiuns fixaram a atenção na criança, logo perceberam a presença de um campo vibratório denso fortemente imantado ao perispírito do garoto, como a cavalgar-lhe o dorso. Era o obsessor que ali se encontrava a manipular as rédeas e o tal freio bucal. De certa forma o diagnóstico não apresentou dificuldade. A análise clarividente dos médiuns permitiu a identificação do artifício obsessivo. Todavia, no caso citado por Manoel Philomeno de Miranda, o diagnóstico exigiria um pouco mais de conhecimento e traquejo. O diminuto aparelho parasita, semelhante a verdadeiro “chip” eletrônico incrustado na intimidade do cérebro, sem a presença costumeira do obsessor ao lado do enfermo, provavelmente dificultaria o diagnóstico da síndrome. O grupo mediúnico teria de se valer da clarividência espontânea ou induzida pel
o desdobramento perispirítico, para identificar o minúsculo instrumento cerebral e depois localizar na erraticidade umbralina o espírito responsável.

Como se deduz, são situações que requerem um bom nível de treinamento do grupo mediúnico, e, sobretudo, o concurso de dirigentes afeiçoados às modernas técnicas de investigação do psiquismo de profundidade. Além do mais, era preciso localizar à distância o espírito responsável pela cirurgia do implante, para que, uma vez atraído ao cenário mediúnico, o mesmo fosse submetido ao diálogo esclarecedor e convencido a retirar, ele próprio, o artefato parasita, oportunidade ofertada pela misericórdia divina com vistas à recuperação inicial da entidade maléfica envolvida em sombras.

Pode-se adiantar aos prezados leitores que, apesar do árduo desafio, esse desiderato é perfeitamente exeqüível. Tudo vai depender de alguns requisitos essenciais, a saber: experiência do grupo mediúnico na tarefa desobsessiva; formação criteriosa na doutrina codificada por Allan Kardec, apoio incondicional dos mentores espirituais; e disposição de servir aos necessitados, de acordo com as normas evangélicas norteadoras do Espiritismo. Não obstante as técnicas avançadas engendradas pelos verdugos espirituais, já se dispõe, no presente momento, de contramedidas defensivas capazes de fazer frente ao avanço das sombras.

No entanto, em se considerando a sujeição da maioria dos mortais aos processos obsessivos de repercussão grave, não se deve olvidar as normas sabiamente ofertadas por Manoel Philomeno de Miranda, na obra anteriormente citada: “– Em qualquer problema de desobsessão, a parte mais importante e difícil pertence ao paciente, que afinal de contas é o endividado. A este compete o difícil recurso da insistência no bem, perseverando no dever e fugindo a qualquer custo aos velhos cultos do 'eu' enfermo, aos hábitos infelizes, mediante os quais volta a sintonizar com os seus perseguidores que, embora momentaneamente afastados, não estão convencidos da necesstdade de os libertar. Oração, portanto, mas vigilância, também, conforme a recomendação de Jesus. A prece oferece o tônico da resistência, e a vigilância o vigor da dignidade.

Bibliografia:

1- Allan Kardec. “O Livro dos Médiuns”, capítulo XXIII, 59ª edição, FEB.

2- Yvone A. Pereira. “Recordações da Mediunidade”, Capítulo 10, pg. 193, 2ª edição, FEB.

3- Manoel P. de Miranda & Divaldo P. Franco. “Nos Bastidores da Obsessão”, capítulo 8, pg.159, 1ª edição, 1970, FEB.

4- Idem, pg. 158.

05 março 2007

AUTOCONHECIMENTO - Dra WÂNIA RIBEIRO


As causas de nossos problemas, muitas vezes estão muito mais profundas do que imaginamos. Mas a nossa tendência é de querermos resolver tudo, no imediatismo, sem refletirmos sobre os fatos.

As aparências parecem lógicas, e o nosso raciocínio tende sempre a nos defender, pois às vezes é muito difícil sairmos do nosso ego, da nossa razão, que insistem em nos dizer que estamos certos, dessa forma, o que está inconsciente em nós nos parece sempre correto. A verdade é que muitas vezes ignoramos as causas que nos levam a agir de determinadas maneiras, sendo assim, não vemos motivos para modificarmos.

“Tudo que experimentamos, não desaparece da psique,” termo utilizado por Yung para definir a personalidade como um todo, da mesma forma que exemplifica no seu pensamento: “Nada que foi vivenciado por nós deixa de existir” assim sendo questões não resolvidas do nosso passado, ficam armazenadas no inconsciente e vez por outra elas persistem em retornar à nossa consciência.

É como se fosse uma bóia na água, a qual tenta afundar, e quando cansamos volta à tona, nos exigindo novos esforços para afundá-la. Sem percebermos ficamos repetindo os nossos problemas do passado. Quando menos os esperamos, ressurgem nos apontando que algo não está bem.

Como trazemos experiências de vidas passadas, carregamos também bagagens mal resolvidas de um passado longínquo, porém bem guardado, que podem ter sido geradoras de conflitos e traumas no presente, e nos apresentam como fobias, inseguranças e medos aparentemente descabidos e irreais.

Entretanto ao aprofundarmos no nosso inconsciente, provavelmente nos depararemos com as reais circunstâncias desencadeadoras de nossas dificuldades, nos mostrando a necessidade de desligamento de idéias e convicções que ficaram para trás. Quando desvencilhamos das amarras que nos prendem aos nossos sofrimentos, podemos detectar novos significados para os fatos e adquirir novos conceitos que necessitamos na nossa atual existência, nos libertando de padrões rígidos de comportamentos que trazemos de outrora. Como nosso inconsciente age sobre a nossa conduta, muitas vezes não as entendemos diante de alguns fatos que nos parecem importantes.

Ainda crianças, nós aprendemos a agir de formas diferentes, com a finalidade de obter alguma coisa que nos parece importante. Em determinadas situações somos “bonzinhos”, em outras mostramos “tranqüilidade” e em outras somos birrentos, “poderosos”. A esses comportamentos, damos o nome de máscaras.

Tais atitudes são na realidade mecanismos de defesas que utilizamos para nos sentirmos amados e aceitos pelos outros. Conforme seja a reação daqueles que convivemos, vamos sendo reforçados ou não na nossa maneira de agir. Daí em diante aprendemos a utilizar as máscaras para a nossa “sobrevivência psicológica”.

Portanto, elas se tornam úteis na nossa vida. Faz nos parecer educados, benevolentes, compreensíveis, quando na verdade, a nossa vontade seria outra. Sendo assim, não estaríamos sendo verdadeiros.

Segundo um dos princípios éticos da Yoga a partir do momento em que aprendermos a entender as nossas ações, reações e sentimentos diante dos fatos, teremos novas opções de escolhas decorrentes de um novo aprendizado.

A nossa percepção e conscientização deste processo, não nasce de um dia para o outro. É um trabalho constante, o qual muitas vezes nós mesmos, nos boicotamos, através do nosso eu inferior, pois, enquanto não reconhecermos como ele funciona e se revela, não seremos capazes de dominá-lo, por isso, nem sempre é fácil mudar os nossos hábitos como também aceitar certas verdades.

Às vezes é preciso que a verdade seja buscada em doses “homeopáticas”, de acordo com a estrutura psicológica de cada um. Mas é necessário que a encontremos.

O maior Terapeuta e psicólogo que pisou no Orbe terrestre, Jesus Cristo, já dizia para conhecermos a verdade, pois ela nos libertaria. Na maioria das vezes nós ainda desconhecemos os nossos próprios defeitos e qualidades, predicados aparentemente simples do nosso cotidiano.

Portanto, devemos começar de alguma forma, a nos conhecer. Examinar as nossas atitudes em relação aos outros. Não projetar os nossos defeitos, os quais não aceitamos em nós mesmos, procurar identificar alguns padrões de comportamento (atitudes que repetimos continuamente) iniciando dessa forma a nossa cura pelo processo da auto-análise.

Outra maneira seria nos perguntar, qual o nosso objetivo aqui na Terra. Será que queremos buscar aprendizado, rever conceitos, assumir nossas deficiências, quebrando o nosso orgulho... Se a resposta for positiva, estaremos caminhando no rumo certo, se não, estaremos perdendo o nosso tempo, atrasando a nossa caminhada evolutiva e consequentemente a nossa própria qualidade de vida (Lei de ação e reação).

Quando tivermos dúvidas a respeito de nossas ações, é importante trocarmos de papéis e tentar sentir como seria estar no lugar do outro, sendo nós mesmos nosso próprio juiz.

No mundo em que vivemos, rodeado de informações, de violência, más notícias, conceitos diversificados, terminamos por nos envolver no turbilhão dos acontecimentos e dos modismos. Por isso é preciso fazer uma seleção de valores, dentro do bom senso, da ética e da moral para nos identificarmos, não recorrendo em erros, os quais provavelmente já os cometemos no pretérito.

Ao fazermos assim, estaremos dirigindo a nossa própria vida, pois refletir sobre os nossos reais desejos, nos coloca diante do nosso verdadeiro Projeto Divino, aquele traçado no Mundo Maior.

O Espiritismo vem nos mostrar com clareza, os motivos de nossos sofrimentos e percalços da vida, nos dando noção de como prosseguir.

A psicoterapia vem nos ajudar nesse processo, nos colocando diante de nossas dores, mas nos amadurecendo e nos tornando conscientes, para que nós mesmos possamos tomar as nossas próprias atitudes. Às vezes precisamos de uma pessoa habilitada para nos ajudar nesse processo e identificar mecanismos que não estão ao nosso alcance.

De acordo com Joana de Angelis “A psicologia da religião começa na análise dos recursos de cada um: sua fé, sua dedicação, seus interesses espirituais, suas buscas e fugas, seus medos e conflitos”.

Seria sensato de nossa parte, não deixarmos de resolver aquilo que nos incomoda hoje, jogando a “sujeira para debaixo do tapete”, esperar que um “milagre” aconteça e resolva tudo para nós, ou fugindo para estados depressivos, procedimentos doentios ou afogando-nos em mágoas, complicando ainda mais a nossa posição. Vamos encarar as nossas dificuldades, hoje e agora, para que no futuro, não precisemos buscar respostas no nosso passado.

Todavia, procuremos enxergar também, o nosso lado otimista, positivo e nos agraciar com as nossas qualidades, nos presentear com a alegria de nossos esforços na caminhada evolutiva.

Joana de Angelis frisa que “infelizmente o desconhecimento das nossas potencialidades é que nos impede de movimentarmos para a realização”. Considero que as nossas realizações dependem muito dos nossos pensamentos e das nossas atitudes, assim como nossos relacionamentos são reflexos de nossas ações.

Um grande número de pessoas costuma priorizar o “seu lado negativo”, contribuindo para uma baixa auto-estima, e complexos de inferioridade.

Deste modo, o conhecimento de nós mesmos, depende do nosso próprio esforço no caminho da evolução e do crescimento.

Segundo Dr. Marcelo, componente da equipe espiritual que assiste nossa casa, Centro Espírita Renascer, este ano de 2007, será o “Ano do autoconhecimento.” Acredito que se dedicarmos um pouco mais à reflexão e análise dos nossos atos no final do dia, já estaremos iniciando a nossa conquista. Faço votos que possamos caminhar juntos nesta tarefa, indo de encontro ao nosso verdadeiro eu, sendo este um dos nossos maiores desafios.

“Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face.

E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos

e coloca-los-ei no lugar dos meus;

E arrancarei meus olhos

para colocá-los no lugar dos teus:

Então ver-te-ei com os teus olhos

E tu ver-me-ás com os meus”.

( J. L. Moreno, publicado em Viena,1914)

Muita paz a todos!

Wânia Ribeiro

26 fevereiro 2007

NASCIMENTO DAS RELIGIÕES - DR. IVAN HERVÉ



Inicialmente, vamos definir alguns termos básicos, indispensáveis para possibilitar a delimitação do que se deve entender por religião.
Cosmogonia--- Teoria, hipótese ou especulação sobre a origem do Universo. Mesmo raças primitivas desenvolveram mitos a este respeito, inclusive a criação do mundo, exposta na Bíblia. Reservada, atualmente, por muitos, para expressar os mitos primitivos, de interesse antropológico e histórico.
Cosmologia --- Teorias que tentam explicar, cientificamente, a origem do Universo.
Escatologia --- É um termo teológico derivado do Novo Testamento, relacionado com o Apocalipse (os últimos dias) e antigas profecias, pois também o hinduismo, budismo, zoroastrismo e outras religiões, possuem teorias a respeito desse tema.
Religião --- Em termos atuais, poderíamos dizer que religião é “o conjunto de crenças e cultos praticados por um grupo social, em que uma força sobrenatural é objeto de devoção e temor. Praticamente, todas tem uma visão do mundo e possuem um código de preceitos éticos”.
As definições acima são atuais. Mas, neste trabalho, tentaremos explicar o nascimento e o evolver das religiões. Não existem dados concretos com relação ao despertar da religiosidade, no homem. Entendemos que nasceram juntos, se é que isso já não ocorria, de algum modo, em alguns animais superiores.
Ao que tudo indica, já o homem de Neanderthal cultuava certos animais e acreditava na vida pós-morte. O culto dos antepassados,até hoje presente em varias religiões,deve ter sido a primeira manifestação de religiosidade humana. No entanto, os xamãs, surgidos ha mais de 50.000 anos e ainda hoje existentes, provavelmente, foram os responsáveis pelo estabelecimento da relação entre os dois mundos.
A Antropologia Cultural demonstra que, indiscutivelmente, todas as religiões ali tiveram sua origem. Quanto mais primitiva, mais simples seus mitos e cultos. É de acentuar a presença freqüente, desde o inicio, da crença na reencarnação. O mundo xamânico, rico em manifestações espirituais, não apresentava um deus/a dominante.
Aparentemente, o culto da Deusa Mãe foi o primeiro a destacar-se, pois dele existem sinais que remontam a mais de 30.000 anos, nas tribos de caçadores-coletores. Permaneceu por milênios, sendo reforçado nas sociedades agrárias, algumas já avançadas (período neolítico).
Entalhes gravados em pedra, mostram mulheres nuas, obesas, quadris e seios exagerados, triângulo púbico bem saliente. Algumas grávidas.Seriam trabalhos de arte sacra? Provavelmente, impressionados pelo poder gerador da mulher, semelhante à força germinadora da terra, alem da ignorância da paternidade, sendo ambas responsáveis pela vida dos bebes e dos vegetais e animais, teriam que ser divinizadas.
Figuras com evidente intenção religiosa, numerosas, foram encontradas, datando do período situado entre 4.500 e 3.500 atrás. Mulher e terra doavam a vida. Podiam também retira-la, quando ofendidas, causando também destruição. Dai algumas empunharem serpentes.
Na Suméria, 4.000 anos a.C., construíam zigurates, procurando unir a Deusa Mãe com os deuses do céu. A rainha era identificada com a deusa.
Nos 1.500 anos seguintes os povos do Oriente Médio evoluíram, a partir da Anatólia, ao norte, até o Egito, no sul, estendendo-se até o Iran, mas a Deusa Mãe predominava em toda área. Fogo da vida originava plantas e corpos. Recebia os mortos. Presidia a vida, nascimento, morte e renascimento. Dai a idéia de reencarnação.
Sua presença no Egito (Nut e Isis), Suméria (Inana e Erihkigal), Babilônia (Ishtar e Tiamat), Canãa (Astarte ou Amat), China (a Deusa alimentava seu marido com o ato sexual), e outras nações poderiam ser citadas, demonstra que, em certo momento, sua aceitação foi, praticamente universal. Naturalmente, existiam deuses e deusas secundários, geralmente provindos das crenças xamanicas.
O feiticeiro moderno considera-se parte do renascimento de uma ancestral religião da natureza, um culto que antecede ao cristianismo e não se opõe especificamente aos ensinamentos de Jesus. Essa religião que se chama Wicca (feiticeira em inglês arcaico), relaciona-se com as estações e prega o jubilo e celebrações (ritos). Veneram a Deusa Mãe, revivendo a antiga tradição. Alguns ramos da Wicca também cultuam uma divindade masculina, o Deus Chifrudo, vinculado ao deus grego Pan e ao celta Cernuno, simbolizado pelo sol, sendo o senhor da caça e da morte, nada tendo de satânico.
Provavelmente, nas sociedades agrárias, cujo inicio data, possivelmente, de 8.000 anos atrás, o homem entendeu seu papel de pai, passando a mulher a ser apenas depositaria de sua semente. Posteriormente, as cidades agrárias foram tomadas pelas tribos semitas, vindas dos desertos do sul; os helenos, do sul da Rússia, e os arianos, da Europa. Destronaram a Deusa Mãe e a substituíram pelos deuses guerreiros que adoravam. Assim surgiram Yehweh e Zeus.
Assim, Tiamat, mãe de todos os deuses da Babilônia, passou a ser um enorme peixe, comandando demônios. Os deuses masculinos designaram Marduk, para enfrenta-la. Matou-a e fez o Universo, com seus restos. Historias semelhante, onde a deusa é destruída ou colocada em posição secundaria, através do casamento, tornaram-se comuns, inclusive no Velho Testamento, onde Yehweh vence a Leviatã, monstro cósmico do mar, relacionado com divindade feminina anterior.
Na Grécia, Zeus derrota Tifon, (metade homem-metade serpente), filho mais novo de Gaia, deusa da Terra.
A lenda de Lilith, de origem semita, relata ter sido ela criada, do lodo e do limo da terra, juntamente com Adão, para ser sua mulher. É anterior a Eva, mas revoltou-se, não suportando o mando masculino, inclusive não aceitava ficar por baixo, na relação sexual. Fugiu do Paraíso, sendo perseguida por 3 anjos. Preferiu viver entre demônios, passando a ser a princesa dos súcubos (espíritos femininos), os quais atacam e/ou seduzem os homens adormecidos, sugando suas energias vitais.
Estabelecida à predominância dos deuses masculinos, praticamente todas as religiões, por largo período, apresentaram “panteons” com numerosos deuses e deusas, liderados por um deles, sem predominância absoluta. Basta relembrar as mitologias grega, romana e africana, para confirmar o que foi aqui expresso.
Essas mitologias, e outras não citadas apresentam deuses e deusas com biografias muito semelhantes, embora isso tenha ocorrido em lugares muito distantes. Assim, Hecáte-Deméter, rainha do inferno, aumentava seu poder a meia-noite e era encontrada na encruzilhada. Para acalma-la, usavam bolos de mel e corações de galinha, colocados na soleira da porta. Presentes nas encruzilhadas e sacrifícios de animais e humanos eram utilizados. É de recordar que a magia, branca ou negra, iniciadas com os xãmas, espalhou-se por todas as antigas religiões. Até na Roma Imperial, a magia branca era tolerada e a negra, combatida duramente. Isso demonstra o temor aos feiticeiros, herdado de épocas imemoriais, expressos em lendas de vários povos, tais como germânicos, celtas e escandinavos.
Aos feiticeiros sempre foram atribuídos poderes estranhos dominando os animais e a natureza, realizando festas noturnas, onde invocavam deuses ou espíritos infernais, propiciando-lhes oferendas especiais, inclusive sangue humano.Ai reside a provável origem do sabath.
A Igreja Católica Romana, em sua severa perseguição as bruxas, abrandada a partir de 1.750, apenas revitalizou a campanha que contra elas sempre existiu, capitalizando o temor e as lendas existentes, centralizando na Demonologia, as historias relatadas através dos milênios.
Antes de prosseguir, vamos esclarecer que bruxaria e medicina nasceram juntas, iniciando a caminhada no xamanismo e, posteriormente, foram se independisando, como comprovam lendas de varias religiões, Assim, na tradição africana, Ossain é o orixá dos curandeiros, e Orunmila, o pai dos adivinhos.Os filhos de Ossain, não entram em estado alterado de consciência.Na Casa da Vida, os sacerdotes egípcios aprendiam ambas.
Evidente é que, há 50.000 anos, os xamãs viviam em tribos compostas por 30 ou 40 indivíduos, as quais se relacionavam, frouxamente, com 30 ou 40 tribos semelhantes. Seu modo de agir, nesse estagio, embora semelhante em todo o mundo não configurava uma religião.Isso ocorreu com o surgimento do culto da Deusa Mãe, com características próprias, em povoações maiores. Tornaram-se regionais ou nacionais, quando da conquista de novos territórios, absorvendo ou adaptando os deuses locais. Dai as confusões e complicações que surgem nas mitologias africanas, gregas e romanas, entre outras,
O desenvolvimento da civilização e do inter-relacionamento dos povos trouxe o surgimento da idéia de um deus maior, embora não senhor absoluto. Zeus, Júpiter e Olorun são exemplos dessa fase. A idéia do Deus Único, responsável pelo planeta e/ou Universo, teria sido tentada por Amenotep 4°(1367 a.C.), e logo desfeita por seu filho Tutancamon.
Moisés, considerado fundador do judaísmo, proclamou Yehweh como Deus Único do povo de Israel. Isso ocorreu no séc. 13 a.C., quando ele assumiu a liderança dos judeus, na fuga do Egito. É de relembrar que, Abrãao, ainda residente em Ur, já era monoteísta, bem como seus descendentes, Isaac e Jacob. Outros parentes permaneceram pagãos.
A natureza e os atributos de Deus, desde Moisés, tem variado muito, não só nas religiões monoteístas, desde então fundadas, como também em cada uma delas, à medida que a civilização avança. Os Vedas, provavelmente compilados ha 3500 anos, mas cuja existência data de época muito anterior, descrevem, com perfeição, a criação do Universo por Deus Infinito e Imanifesto, isto é, sem espaço e sem tempo. Energia Pura ou energia primordial (conceito quântico). Portanto, o monoteísmo (monismo) é muito anterior a Moisés.
Para finalizar este capitulo, vamos esclarecer que, a maior parte dos estudiosos de religião, afirmam que o budismo e o taoismo não são deístas, pois não focam o assunto diretamente. Segundo estudiosos hindus, a descrição de Nirvana, feita por Buda, corresponde ao Ser Ultimo, dos Vedas.
Lendo com atenção o Tao Te King, de Lao Tsé, tradução de Huberto Rohden, verifica-se, nos comentários que faz sobre a obra, que o Tao se enquadra no conceito monista (Deus Cósmico).


Dr. Ivan Hervé

Religião. Há necessidade?



Durante toda a história da humanidade nos defrontamos com avatares, com seres mais evolúidos moralmente, que se dignam encarnar entre nós para oferecer à humanidade a luz dos seus conhecimentos, contribuindo assim para a evolução do planeta.


Interessante que essas pessoas não se preocuparam em fundar associações. ONG´s, sindicatos, sociedades,... ficando a cargo de seus seguidores tais preocupações. Assim aconteceu com Jesus, Sócrates, Buda, Krishna, entre outros. Alguns deles nunca escreveram uma linha sequer.


Pensando sobre isso devemos refletir sobre a real necessidade da religião no nosso planeta. Todos os estudos sobre o assunto nos mostram que na história da humanidade, a religião sempre foi usada para enganar, trapacear e manter no poder temporal e transitório da Terra, pessoas completamente desligadas da moral de qualquer dessas religiões que seus governantes diziam seguir.


Evidentemente e não por outro motivo, envia Deus constantemente, alguns desses avatares para o seio dessas religiões, como no caso de Francisco de Assis, Madre Tereza de Calcutá, Chico Xavier, Dalai Lama, entre outros.


Nascemos e desde cedo seguimos o padrão religioso familiar, aceitando dogmas e paradigmas, sem nos preocuparmos realmente em raciocinar à luz da razão sobre as coisas que acreditamos,e muitas vezes travando batalhas mentais quando não corporais com outras pessoas que não professam a nossa "verdade", ou que estão conosco no mesmo barco religioso, mas discordam de alguns pontos de vista, tentando entender mais que a gente, o que constitui um dos sete pecados capitais, de forma que devemos anular e rejeitar tudo que vem dessas pessoas. Realmente, não sabemos como vivenciar nossa religiosidade!


A verdade é que por mais difícil que seja aceitar e quebrar esse paradigma, a vida seria muito melhor sem religião. Não digo religiosidade, essa ligação com Deus que nos sustenta, mas religião, esse conjunto de leis e dogmas que nos encarcera e nos mantém inimigos de irmãos que discordam da nossa opinião. Mesmo dentro do espiritismo, doutrina que professa o livre raciocínio e o uso da lógica, vemos a intolerância, a soberba e o uso do conhecimento para o achincalhe de ideias alheias, como se todos devessem andar no mesmo barco, como se DEUS exigisse carteira de filiação a sua doutrina para espalhar seu amor.


Acreditam alguns que sem religião estaríamos num mar a deriva, sujeitos a todo tipo de tempestade, sem proteção, como se o verdadeiro templo não devesse ser erigido em nossos corações, essa sim a única fortaleza segura que podemos ter. Seguir uma doutrina religiosa, participar de uma agremiação onde externamos a nossa fé, a nossa religiosidade, tudo isso é importante, desde que saibamos entender que todas as religiões são transitórias e que o importante e mais urgente é a nossa reforma íntima, a nossa comunhão com esse DEUS pai e mãe, que nos ama sem necessidade de rótulos e títulos. Sejamos de DEUS! O resto é letra morta.
Paz e Luz!
Sérgio Vencio

19 fevereiro 2007

Gemelaridade e espiritualidade. Dra Giselle Fachetti

A Doutrina Espírita nos explica que as famílias terrenas têm uma história pretérita em comum o que é ainda mais evidente no caso dos gêmeos. São espíritos unidos por grande sintonia ou por imensa repulsa.
Segundo a Dra. Carla Franchi Pinto, especialista em gemelogia, várias teorias já foram sugeridas a fim de explicar os mecanismos determinantes da gemelaridade. Fatores ambientais e genéticos foram descritos como predisponentes a esta circunstância obstétrica. A freqüência de nascimentos de gêmeos no Brasil parece estar estabilizada em 8,8 por mil nascimentos. Porém, vem ocorrendo queda do número de dizigóticos e aumento nos monozigóticos.
Os gêmeos são seres unidos não só por sua consangüinidade óbvia, mas por uma longa história de convivência espiritual como encarnados ou desencarnados, fato que é ignorado pela ciência oficial. Geralmente são seres de grande afinidade que encontram nessa oportunidade de reencarne simultâneo um grande suporte para enfrentarem as incertezas em relação às tarefas e objetivos assumidos durante a fase de programação pré-encarnatória.
Existem exceções, os gêmeos Esaú e Jacó, personagens bíblicos, apresentavam forte antagonismo recíproco, provavelmente fruto de graves conflitos em vidas passadas. A história da imprensa nos revela antigas reportagens sobre o caso das gêmeas xifópagas baianas, Nadir e Juracir, que nada tinham de afeto uma pela outra. São exceções que confirmam a regra de afinidade e harmonia habitual entre gêmeos.
Quem imagina que apenas a união dos desafetos seja uma estrada longa de aprendizado, se engana. Aqueles que comungam de grande afinidade estão num processo tão importante de aprendizado quanto os outros, mais suave e terno, sem dúvida, porém não menos árduo.
Por isso, aqui pretendo abordar questões relativas aos gêmeos afins, os quais são sintonizados em suas virtudes e vícios, tendências e fragilidades. Muitas vezes até manifestam seus talentos de forma complementar, independentemente se são mono ou dizigóticos.
A inspiração para esse artigo surgiu quando atendemos, em um trabalho mediúnico assistencial, uma dupla de espíritos “gêmeos” patologicamente unidos por parasitismo recíproco cujo desligamento foi bastante doloroso. Naquela oportunidade fui orientada para redigir este artigo de esclarecimento aproveitando minha experiência pessoal.
Eu e minha querida irmã nascemos de uma mesma gravidez, portanto, somos gêmeas. É pitoresco que o nosso endereço de nascimento seja diferente. Nasci em casa, inesperadamente prematura, 2100g, era um domingo e o almoço estava servido.
Minha irmã, segunda gemelar, apresentou uma procedência de mão, que fez com que meu pai, obstetra experiente, conduzisse minha mãe ao hospital mais próximo. Eles foram em busca de uma analgesia para facilitar as manobras obstétricas que se impunham no caso. O meio de transporte era um robusto jipe.
Logo que eles chegaram ao hospital ela nasceu, sem qualquer manobra extrativa, vinte e cinco minutos depois do meu parto, 2200g. O sacolejar do Jipe corrigiu sua apresentação. Eu havia ficado em casa, mamando a ponta de uma toalha, sob os olhares de minha querida madrinha.
Meus pais e a Dinda ainda tiveram que nos auxiliar em nossa luta pela sobrevivência por cerca de três meses. Não havia UTI neonatal, nem energia elétrica e era inverno rigoroso no norte do Paraná. Sobrevivemos, as duas, tanto que aqui comento diretamente (e não por psicografia) nossa experiência em comum.
Somos dizigóticas, portanto, diferentes fisicamente. Temos temperamentos, gostos e talentos, também, diferentes. É um verdadeiro privilégio, uma oportunidade abençoada, reencarnar ao lado de um ente querido e desenvolver-se contemporânea e proximamente a ele. Já nascemos contando com um amigo para todos os instantes.
Mas a gemelaridade fez com que a nossa convivência compulsória e constante nos tornasse muito ligadas, talvez mais do que o que seria o ideal. Essa intensa conexão se presta a ensinar as lições compatíveis com esta existência peculiar, entre elas ressaltamos o compartilhar e o confiar. O que efetivamente aprendemos logo, ainda na primeira infância.
Havia uma cumplicidade e uma complementaridade que chegava a nos levar a estripulias que julgávamos inocentes. Burlarmos regras de esforço individual para o aprendizado escolar padrão. Confesso que redigia as minhas redações e as da Thais. Ela fazia meus deveres de matemática e física. Algumas vezes chegamos a nos dar cola em provas. Era inevitável, sentávamos na mesma carteira dupla (gêmeas?) de uma escola de arquitetura antiga.
Todo privilégio pode e deve ser um meio de acelerar o desenvolvimento espiritual, entretanto se não respeitarmos limites saudáveis dessa convivência íntima e prolongada, esse suposto benefício pode transformar-se em um grave impedimento para a descoberta e aperfeiçoamento da individualidade dos gêmeos.
Uma simbiose profunda pode tornar esses irmãos tão interdependentes que não sobrevivam, emocional ou fisicamente, isolados. Os gêmeos xifópagos representam o extremo da dependência física. Em relação à dependência emocional, muito mais freqüente, é carente de exemplos específicos, pois é comumente dissimulada de forma consciente ou não, tanto pelos próprios gêmeos quanto pelos familiares.
Minha irmã era mais segura de si e tinha grande autoridade sobre mim. Demorei a libertar-me dessa submissão. A completude e o conforto que sentíamos reciprocamente, dava-nos a impressão de auto-suficiência isolando-nos, relativamente, da comunidade altamente interativa ao nosso redor. A timidez comprometeu a nós duas já que não necessitávamos de companhias novas. Apenas pessoas muito seletas eram admitidas em nosso clubinho particular de duas sócias.
Começamos a desenvolver a tão necessária autonomia já na adolescência, fenômeno que creio ocorrer bem antes com os solitários. A Universidade propiciou o fechamento definitivo da fase de interdependência exagerada.
Nossos caminhos se separaram um pouco, passamos a desfrutar de um relacionamento fraternal quase que comum aos irmãos que se querem bem. Mas esse processo de separação gradual foi penoso, pelo menos para mim, e a conquista da individualidade um troféu que achei que soubesse reconhecer o valor.

Mas quando me deparei com o grau de ligação energética entre os gêmeos que foram atendidos em nosso trabalho mediúnico é que tomei consciência da importância que o nosso esforço em desenvolver-nos separadamente teve.
Muitas vezes são descritos em fontes espíritas as explicações de ordem espiritual para a ocorrência dos gêmeos acolados ou xifópagos. A justificativa é a intensa fixação mental recíproca. Acredito, porém, que esse processo ocorre mesmo em casos de ligação de afeto e não apenas nas de ódio, rancor e culpa.
O equilíbrio é necessário inclusive no modo e na intensidade de expressarmos o amor verdadeiro. Sabemos que esse sentimento em sua forma mais pura e elevada, a forma ágape, não busca os seus próprios interesses. Assim o exercício do amor equilibrado trará o esperado apoio entre os gêmeos permitindo que o processo de individuação se faça plenamente.
Individuação é definida por Ermance Dufaux como o descobrir de nossa singularidade integrando-nos com o próximo, a vida e a natureza. Orienta-nos ela, que esse processo só é possível quando acolhemos a “sombra” do inconsciente com os “braços” do ego entregando-a a “inteligência espiritual” do self, para transformá-la em luz e erguimento conforme as aspirações do Espírito.
Essa visão deve ser compartilhada com os pais dos gêmeos que muitas vezes colaboram e estimulam a dependência entre eles confundindo-a com afeto, afinidade e companheirismo salutar. O estímulo á convivência com outras crianças, o estímulo a ocasionais atividades lúdicas e educativas em separado, o respeito às diferenças de talentos e preferências, assim como a redução das expectativas em relação a resultados e atitudes semelhantes são alguns dos objetivos de ação a serem propostos aos pais dos gêmeos.
Outra atitude importante é a abolição de comparações de comportamentos nos momentos em que a correção é imperativa. A opção pelo certo não deve ser baseada na correção e adequação do irmão, mas sim no fato de ser a forma correta de agir, simplesmente assim.
A meta é evitarmos que eles cresçam com expectativas irreais de partilharem toda a sua existência conforme o fizeram na infância. Dessa forma suportarão mais bravamente a dor que o outro venha a sofrer. Pois que eles (nós), de forma similar aos pais em relação a seus filhos, parecem sentir menos sua própria dor do que a dor de seu mais do que fraterno irmão. Eles então tomarão da vida o que ela lhe der e o que ele individualmente fizer por conquistar, sem que a culpa em relação ás diferenças de destino (culpa essa fruto de uma fantasia infantil mal elaborada), os façam boicotar a felicidade que não encontra reflexo em seu parceiro de caminhada espiritual.
Aqueles irmãos, que em nosso atendimento no Centro Espírita foram vistos como um verdadeiro amálgama humano possivelmente estariam livres para o progresso pleno, em um período de tempo menor e com menor desgaste energético, se tivessem tido um acolhimento encarnatório em um ambiente com acesso aos esclarecimentos de que dispomos agora.
Estamos certos que eles, em sua próxima encarnação, obterão a individuação que necessitam com a benção do Mestre Jesus, nosso eterno auxiliar. Rogamos a Deus por todos os irmãos presos às ilusões da dor e do desencanto na certeza que serão atendidos por sua misericórdia assim como nós temos sido atendidos por essa mesma misericórdia em nossas fraquezas e limites.


Giselle Fachetti Machado.