07 setembro 2020

O IMPACTO DO SUICÍDIO NA FAMÍLIA - Cristiane de Carvalho Neves


 A
tuo como psicóloga exclusivamente na clínica, e especialmente no enfoque sistêmico, nas perdas e no luto e em experiências traumáticas. Entretanto, independente da abordagem, o meu maior propósito quando recebo uma pessoa no consultório, é construir um vínculo afetivo e de escuta respeitosa com o paciente. 

Trabalhando com famílias, pessoas enlutadas ou traumatizadas, acabamos por nos aproximar de situações relacionadas ao suicídio. São pessoas que vem por indicação do psiquiatra ou trazido por algum familiar. Outra situação que também me acontece muito é o atendimento de uma pessoa que me traz queixas diversas, porém, com risco velado para o suicídio. O estudo e trabalho sobre os processos do enlutamento me treinou a uma escuta atenta a essa questão do suicídio; uma escuta que me possibilitou captar essa possibilidade e abrir porta para que a pessoa fale sobre isso. Assim, nos conduzimos ao primordial sobre a atenção aos aspectos do suicídio: a importância de poder falar sobre os pensamentos suicidas como prevenção.

É difícil explicar por que algumas pessoas escolhem o suicídio, enquanto outras, em situação similar ou pior, não o fazem. Se conseguirmos olhar para ato suicida como algo mais complexo do que imaginamos, poderemos compreender e ajudar melhor a quem está precisando dessa atenção. Acreditamos que a nossa principal tarefa como profissionais, e principalmente, como pessoas que temos interesse pela vida das outras pessoas, é fazer a prevenção e posvenção ao suicídio. 

A Prevenção se faz por meio da escuta ativa, da capacidade de se colocar no lugar do outro e de adentrar no mundo dele. E, para tal, não basta ser bom de coração, precisamos conhecer alguns aspectos que estão implicados na complexidade do comportamento suicida. Entre esses aspectos, temos os lutos não elaborados ou mal resolvidos; a precariedade afetiva nas relações familiares; o acúmulo de experiências de fracasso; um histórico de transtornos psíquicos; e, o mais agravante, a depressão, muitas vezes, não tratada por não ser admitida ou compreendida pela própria família. 

Portanto, a Prevenção se refere ao que podemos fazer para evitar o suicídio. Enquanto, a Posvenção é um conjunto de intervenções para evitar que uma nova tentativa de suicídio aconteça. Na Posvenção criamos estratégias de cuidados com o enlutado ou sobrevivente por suicídio, a fim de evitar o luto complicado e a repetição do ato.

As pesquisas e a nossa prática clínica apontam que a maioria dos que cometeram suicídio, de alguma maneira, se comunicou com familiares, médicos ou amigos, antes de atentar contra a própria vida. Também, sabemos que existem casos de pessoas, especialmente, as crianças, os adolescentes e os idosos, que agiram com impulsividade, imaturidade ou esconderam suas intenções, e privaram-se de qualquer ajuda, de tratamento e prevenção. De qualquer forma, sabemos que o suicídio ainda é um tema tabu na nossa sociedade, devido à nossa dificuldade em acolher a dor expressada ou manifestada. Geralmente, sentimos impotentes e impactados, até por conta dos nossos preconceitos. E como um familiar, a situação ainda é pior, devido aos sentimentos de culpa e medo que nos paralisam.

O suicídio ou a sua tentativa, exerce na família um impacto que se manifesta de diferentes formas, a depender da maneira como a família irá enfrentar essa situação. Por exemplo, a forma como a família lida com situações traumáticas, vai determinar o processo de luto ou a sua reorganização em caso de tentativa frustrada do suicídio.

Por falta de conhecimento, podemos observar que há muito preconceito na sociedade sobre o que é o suicídio e, também, vemos isso acontecendo na família, impedindo uma comunicação aberta entre os membros da família sobre o que se passa com eles. Sempre que se fala em suicídio ou em tentativa de suicídio, a tendência é ignorar ou reprimir, ao mesmo tempo em que se quer ajudar e acolher. Por isso, o contato fica mais difícil e, muitas vezes, não acontece.

A pessoa que tenta o suicídio precisa de alguém para confiar, e o resgate ou a criação do vínculo é de extrema importância na família, podendo o aprendizado começar por meio da terapia com o vínculo terapêutico ou com o auxílio do terapeuta no sistema familiar. As famílias devem ser incluídas no tratamento de pessoas com ideação e principalmente com tentativa de suicídio. Às vezes, a família se sente muito culpada ou pode pensar que, se for atendida, roubará tempo do atendimento àquele que, na sua concepção, mais necessita. 

Entretanto, com a participação da família no processo psicoterapêutico da pessoa com tentativa de suicídio, percebo, em alguns casos, a preocupação ou medo dos pais ou cuidadores em se “descobrirem” responsáveis por aquele comportamento do filho e não conseguirem carregar esse fardo. Porém, a ideia é poder trabalhar a coparticipação, assim como, a corresponsabilidade pela dinâmica relacional daquele sistema familiar, ajudando-os a encontrar uma nova forma de lidarem com as situações difíceis, juntos.

A pessoa quando chega ao ponto de atentar contra a própria vida, pode estar convivendo há bastante tempo com o sofrimento. É comum que o processo de comunicação entre os membros da família, principalmente com alguém que tentou o suicídio, fique frágil e truncado, não permitindo um bom acolhimento da pessoa, dificultando um trabalho preventivo. A prevenção nesses casos é muito necessária para que não haja uma nova tentativa. Cabe lembrarmos que é na crise que se ressignificam os papéis e se torna uma possibilidade de desenvolver a resiliência permitindo à família superar a desestruturação e se reorganizar a partir dela.

Quando alguém na família tenta suicídio ou quando morre por suicídio e isso não é conversado, criando um segredo, criam-se buracos dentro do sistema e acabam sendo preenchidos com inadequações, além de que vai sendo repassado de geração a geração, criando repetições de padrões anteriores. É desejável que o diálogo seja uma constante no sistema familiar, onde todos se sintam pertencentes e acolhidos em suas diferenças. Essa característica familiar será importante para que cada um na família se sinta respeitado na sua forma de expressar o seu sofrimento do luto.

O alerta sobre os cuidados com as pessoas que sofrem não deve se restringir apenas no mês de setembro, mas sim, durante o ano todo. Vamos cuidar da nossa família – fazendo o nosso melhor, ofertando atenção, carinho e respeito – e da nossa espiritualidade, nos conectando com a força maior que vem de Deus. É disso que todos nós precisamos.

 

Por Cristiane de Carvalho Neves

Psicóloga Clín. Esp. em Atend. Sistêmico Familiar e Luto


20 julho 2020

Fenômeno psicológico da dependência - Ricardo Gandra Di Bernardi


Somos Espíritos encarnados, trazemos em nosso inconsciente grande manancial de energias construídas ao longo dos milênios, isto é, de inúmeras reencarnações. Nossas mentes produzem ondas, geram campos de força e tem facilidade de sintonizar com outras mentes que vibram na mesma faixa que a nossa, mas, quanto maior a fragilidade ou imaturidade espiritual mais buscamos, instintivamente, apoio em outras mentes.
São sobejamente conhecidos os sintomas e comportamentos das pessoas que se acham dependentes de substâncias químicas e podemos fazer uma analogia com a dependência psíquica. Indivíduos, encarnados ou desencarnados, quando apresentam desequilíbrios vibratórios decorrentes de mente enferma ou debilitada, podem se tornar dependentes de outras pessoas ou até mesmo de ambientes, esses Espíritos encontram-se em dependência psíquica.
 O dependente químico tem sintomas iniciais de euforia e aparente bem-estar, mas, com o tempo, os malefícios começam a aparecer e cresce a dependência ao produto ou droga. Na fase de viciação, há diversos prejuízos, também para as pessoas de convivência diária, pois a ausência da substância química desenvolve comportamentos de agressividade, agitação e outros, ocasionando sérios problemas no meio familiar e social que convivem.
A dependência mental, como fragilidade espiritual, segue o mesmo raciocínio da dependência química. Conversas picantes, anedotas chulas e atitudes depreciativas tidas como divertidas, quando relacionadas a determinados grupos, etnias, lugares ou tipos de pessoas, são exemplos que poderão trazer sensações de prazer mórbido, e a repetição dessa conduta, determina uma dependência mental e viciação à padrões de pensamento de baixo teor vibratório.
Há uma sintonia do indivíduo com Espíritos desencarnados que se comprazem com futilidades, além do indivíduo sintonizar com ondas mentais de pessoas encarnadas que irradiam pensamentos do mesmo padrão.  À medida que o Espírito (encarnado ou desencarnado) sintoniza com mentes desse jaez, passa a se alimentar de energia vital ou outras formas de energia provindas de mentes enfermas e, tal qual um dependente químico, passa a sentir falta da “alimentação” que o “nutre”. Sente-se carente da presença ou convívio de outras mentes enfermas com características semelhantes; já está, agora, na fase de dependência psíquica e se for afastado ou impedido do convívio com seus semelhantes - por orientação terapêutica ou espiritual -, pode apresentar agitação e agressividade exigindo cuidados especiais. Assim, observa-se que os sinais e sintomas do dependente psíquico, ao se ver privado de sua fonte de energias enfermas, se assemelham muito aos do dependente químico.
Existe, também, a dependência mental a uma pessoa, um líder por exemplo. O indivíduo sente um desejo incontido de estar próximo daquela pessoa, ser tocado, ouvir sem analisar, enfim, torna-se emocional e irracionalmente preso. Há inúmeras modalidades de dependência psíquica, por exemplo, necessidade exacerbada de fazer compras, prender-se a seriados na TV, internet, telefone celular, estádios de futebol, bares e outras, desde que essas atividades impeçam a pessoa de tornar-se mais produtiva, ampliando seus conhecimentos e valores da alma.
Quando esse tipo de distúrbio não é diagnosticado e tratado corretamente, o Espírito ao desencarnar leva consigo essa dependência e permanece atraído aos locais, atividades e pessoas às quais se encontra preso psiquicamente.
A leitura de bons livros, música elevada, filmes e documentários que tragam conhecimentos e estímulos aos bons princípios da ética são atividades que nos afastam das dependências psíquicas prejudiciais ao nosso Espírito. Buscarmos ambientes de harmonia e conversas saudáveis criam uma psicosfera favorável ao equilíbrio e refletem em nós a vontade do crescimento espiritual.
São preferências, desejos e vontades que determinam o tipo de energia que geramos e, principalmente, absorveremos e sentiremos falta quando estivermos privados dela. Vibremos no amor, alegria, tranquilidade, paz, estudo e trabalho que a atmosfera mental de nossos Espírito se enriquecerá com convivências construtivas, sem dependências psíquicas.    
Todo costume, mesmo sendo elevado e construtivo deve libertar com responsabilidade e nunca prender.   

  Bibliografia PALMEIRA, José A. M./ BORTOLETTO, Ivaneide./ PESCHEBÉA, Marisa. A Dança das Energias, Cap. 3, 3ª Edição, Curitiba, Ed. Centro Espírita Luz e Caridade, 2016.  
KARDEC, Allan. O Livro dos médiuns. Tradução de Herculano Pires São Paulo, Ed. LAKE, 1973. 
XAVIER, Francisco Cândido/Espírito André Luiz.  Mecanismos da mediunidade. 8. Ed. Rio de Janeiro, FEB, 1959.  Evolução em dois mundos. 9. Ed. Rio de Janeiro, FEB, 1959. 

Dr. Ricardo di Bernardi é fundador de ex-presidente da AME Santa Catarina, médico e conferencista espírita internacional.
  

18 julho 2020

Rituais de luto em tempo de COVID-19 - Cristiane C Neves



Nesse momento de pandemia, nós estamos vivendo vários tipos de luto, pois o processo de luto acontece em decorrência da experiência de perda, ou seja, a partir do rompimento de uma relação afetiva significativa. E, é isso que estamos passando nesse período, por diversas perdas importantes: emprego, produtividade, financeiras, perdemos aquele caminho planejado que estávamos percorrendo com sensação de segurança, perdemos temporariamente a convivência e o abraço das pessoas que amamos, e o pior de todas essas perdas: perdemos entes queridos. Nesse contexto, os rituais de passagem entre a vida e a morte têm o objetivo de reduzir a dor da perda, contribuindo para um processo de aceitação e continuidade da vida. Os rituais do luto são reconhecidos como fator de proteção muito efetivo e que favorece o processo de luto.
Na ausência desse ritual por conta do isolamento e proteção contra o vírus, é importante a comunicação com pessoas familiares ou no meio social ou religioso que passaram pela perda: ter contato afetivo (que seja virtual), a troca de experiências, uma rede de apoio ativa em que podemos confiar. Como exemplo, a Comunidade Espírita Ramatis oferece esse suporte emocional por meio do grupo de apoio aos enlutados. O acolhimento ao enlutado deve ser isento de “correções” dos sentimentos do enlutado e não deve haver medidor da dor ou comparações. Cada qual sabe a dor da sua perda e essa deve ser ouvida e respeitada. O luto já dá uma sensação de que estamos sozinhos no mundo, e ficar isolado com o nosso sofrimento pode potencializar isso, gerar mais sofrimento levando ao adoecimento emocional e físico.
A morte repentina e inesperada, que pode acontecer por tragédias ou morte súbita e, atualmente, vem acontecendo por conta da potencialidade desse Coronavírus, é considerada complicadora para a elaboração do luto reconhecido como luto normal e pode gerar transtornos psicológicos importantes nos enlutados por esse tipo de perda. O processo de luto se dá de forma mais intensa e duradoura do que o esperado, por não ter conseguido processar a situação nem se despedir de forma que lhe permita ter um senso de realidade e concretude.
A impossibilidade para que seja feito o trabalho do luto antecipatório – aquele que antecede à morte e auxilia no processo de finitude tanto para o doente em estado terminal, quanto para a família que prevê a perda – e, a consequência do impedimento de vivenciar os rituais fúnebres, pode trazer intensos sentimentos de raiva, culpa, choque, pânico, angústia, que somados a uma experiência de luto coletivo, no caso da pandemia, aumenta o risco para a complicação das características de um luto normal, no qual dá-se o nome de luto complicado. O enlutado vivenciando um luto complicado vai necessitar de um cuidado maior tanto das pessoas próximas, quanto de profissionais qualificados para auxiliá-lo na retomada de investimento nas situações necessárias para o enfrentamento da vida. Portanto, a fim de minimizar os efeitos nocivos para o luto, vamos sugerir algumas adaptações para a realização dos rituais fúnebres: 
·        Podemos promover encontros virtuais com familiares e amigos que conheceram e conviveram com o falecido. Podemos pedir para as pessoas trazerem para o encontro on-line algo simbólico para compartilhar, como uma vela acesa; uma memória ou história sobre o falecido; uma imagem ou um poema como homenagem ao falecido. Fazer com que as pessoas contribuam dessa maneira pode ajudar a criar uma sensação de unidade e conforto. Essa pode ser uma forma de o enlutado receber o carinho e acolhimento, podendo compartilhar os seus sentimentos com aquelas pessoas conhecidas. E todos podem chorar ou sorrir juntos.

·        Pode-se reservar um tempo para criar um memorial em casa. Uma sugestão seria reservar um tempo olhando as fotografias do falecido, acender uma vela, escrever uma mensagem para ele, seguir um ritual familiar ou espiritual.

·        As pessoas também podem escrever homenagens e memórias afetivas em um documento compartilhado que pode ser transformado depois em um lindo livro de memorias.

·        Possibilitar contato virtual, enquanto não é possível presencial, com líderes religiosos importantes para a família e que sejam significativos para esse momento: cultos/missas virtuais.

·        Como os rituais religiosos públicos estão restritos, podemos sugerir orações em vídeo conferência ou simplesmente marcar um horário para que a família e amigos, cada um de sua casa, dirijam sua atenção e preces ou pensamentos ao falecido e aos enlutados em torno. Pedir para que acendam uma vela em um mesmo momento e compartilhem por WhatsApp também é simbólico.

E na situação de um ente querido internado podemos:
Escrever uma carta (embalada em um saco plástico) ou fazer uma gravação em vídeo que possam ser entregues por profissionais de saúde, são duas ideias interessantes. Pedir que uma música especial seja tocada ou uma poesia seja lida, são outras. Ou seja, lembrar histórias, cantar canções, ler textos, agradecer pela vida daquele que está hospitalizado.
Confiantes no nosso processo de evolução, desejo que possamos passar por essa tribulação, com esperança de um amanhã melhor e reforçados na nossa fé de que que há um Deus no comando de tudo e de todos. Que assim seja!

Por Cristiane C Neves

Psicóloga Clínica Especializada em Luto

12 julho 2020

Psiquismo e Halo energético - Dr. Ricardo Gandra di Bernardi


O verbete "aura" tem origem no latim e significa "sopro de ar". Aura e psicosfera são utilizados, comumente, como sinônimos se referindo ao halo energético existente em torno de todo ser vivo. Existem muitos sinônimos para designar aura ou psicosfera, no entanto, vamos nos ater aos utilizados em nosso meio, isto é, na literatura e nas entidades espíritas.   
O termo "psicosfera" encontramos nas obras espíritas de escol, termo inicialmente mencionado pelo Espírito André Luiz através da fantástica mediunidade de Chico Xavier. Segundo Ele, "Todos os seres vivos, dos mais rudimentares aos mais complexos se revestem de um halo energético que lhes corresponde à natureza.¹ " 
Nos seres vivos primitivos e simples, o halo energético por eles irradiado decorre das atividades físicas que executam, além das emoções rudimentares e manifestações dos seus instintos. Seres unicelulares como as bactérias já manifestam essa irradiação.
Em nós, seres humanos, essas irradiações são enriquecidas pela atividade mental, ou seja, pelas irradiações das emoções e pensamentos. Este halo energético reflete o grau evolutivo de cada Espírito. 
As irradiações que produzimos além de se exteriorizar, elas interpenetram o corpo físico, demonstrando assim, como somos um conjunto de várias dimensões que interagem sempre e ininterruptamente.  Poderíamos dizer que, como cada pessoa possui um vestuário, cada um de nós possui uma psicosfera, mas, além de estarmos vestidos pela nossa psicosfera, nós mesmos a fabricamos.
O halo energético, que nos envolve, possui cores que variam muito conforme o estado físico, emocional ou mental de cada pessoa. De um modo didático, poderíamos dizer que as cores mais claras correspondem a pensamentos positivos, construtivos e mais em harmonia com a Lei do Amor Universal, portanto, observadas em Espíritos mais evoluídos. As cores e tonalidades mais escuras são comuns aos espíritos mais densos, tanto encarnados como desencarnados.
A psicosfera humana pode ser percebida e analisada por médiuns videntes ou por espíritos desencarnados que tenham desenvolvido esta capacidade. A observação dessa estrutura energética pode ser muito útil para avaliações de saúde, condições morais e intelectuais de uma pessoa. Com relação especificamente aos médiuns videntes, é fundamental que estes, além da capacidade anímica de ver a aura, tenham o conhecimento e ética espíritas para só se pronunciar de maneira construtiva e respeitosa em locais e momentos muito adequados. Com relação à opiniões e descrições da nossa psicosfera, feita por Espíritos desencarnados, lembremo-nos que eles são pessoas como nós, portanto, os há em todos os níveis de sabedoria e ética. 
A nossa psicosfera não é estática, há um dinamismo constante. As energias ou fluidos extrafísicos, estão em contínuo movimento, pois o ser vivo está captando e emitindo a todo instante. Deste modo, quando as energias harmônicas provindas de um pensamento equilibrado de um indivíduo, seja encarnado ou desencarnado, interagem com a nossa psicosfera, pode haver uma absorção, por sintonia. Havendo sintonia, (mesmo momentânea), há uma força centrípeta, ou seja, que puxa para o centro, para a intimidade energética da pessoa.
Quando não ocorre sintonia, por não haver afinidade com determinados pensamentos externos, estes são rejeitados pelo nosso corpo mental ². Há uma força centrífuga que elimina o componente estranho. Este mecanismo, muitas vezes, é automático e inconsciente, pois são conquistas do nosso Espírito, arquivadas em núcleos vibratórios.
Um pensamento de ódio, por exemplo, pode fazer parte por um determinado tempo da nossa aura, enquanto mantemos este sentimento. À medida que efetuamos a reforma íntima, modificamos aquele sentimento negativo, por falta de nutrição energética e falta de sintonia, o arquivo relativo àquele ódio é gradativamente eliminado da nossa atmosfera fluídica.
Todas as energias que produzimos passam a fazer parte de nossos arquivos e, na sequência, se entrelaçam com outras energias semelhantes, tanto de encarnados como de desencarnados. Estes entrelaçamentos ocasionam sensações agradáveis ou desagradáveis em nós e, também, nas pessoas com as quais convivemos.
Sentimentos de empatia ou de repulsa a outrem são, frequentemente, decorrentes de percepções inconscientes de emanações energéticas da psicosfera da pessoa. Devem ser compreendidos e trabalhados com resiliência e amor, além de prudência. A falta de afinidade entre os campos energéticos das pessoas costuma gerar diversas dificuldades ou incômodos, enquanto a similitude de vibrações gera um fluxo agradável de energias.
Espíritos superiores tem psicosfera tão sutil que não permite aos Espíritos inferiores vê-los. Há uma diferença de frequência vibratório significativa que impede a sintonia. As sessões mediúnicas fazem a ponte de contato ou intermedia planos espirituais de densidade diferente.
André Luiz nos exemplifica, em várias obras, que espíritos superiores pelo comando do corpo mental alteram temporariamente sua psicosfera deixando-a mais densa para adentrar em locais trevosos para melhor executarem seus trabalhos nesses ambientes. Ao tornarem mais densa ou menos sutil sua psicosfera, evitam serem reconhecidos como seres superiores gerando sentimentos de animosidade ³.
Somos artífices que esculpem a própria escultura. Criamos nosso próprio destino. A espiritualidade de luz emite ondas de amor e sabedoria constantemente, cabe a nós voltarmos nossos radares mentais na direção correta para captarmos o Amor Universal.
Cedo ou tarde nos identificaremos com a centelha divina ou o “Deus em nós”.


Ricardo Gandra Di Bernardi é médico, escritor e conferencista espírita.

            Bibliografia:
1.     XAVIER, Francisco Cândido/Espírito André Luiz, Evolução em dois mundos, Ed. FEB, pág. 163.
2.     XAVIER, ________________________________, Evolução em dois mundos, Ed. FEB, cap. II, pág. 25.
3.     XAVIER, ________________________________, Libertação, Ed. FEB, pág. 67.
4.     CENTRO ESPÍRITA LUZ DA CARIDADE, Curitiba. A Dança das energias – Uma abordagem da energia mental, cap. 5, Psicosferas e Energia Mental.
5.     ICEF- Instituto de Cultura Espírita de Florianópolis- Reuniões de Estudo www.icefaovivo.com.br  

07 junho 2020

Um Olhar justo para 2020. João Rocha


Um local que não imaginávamos existir: Província de Hubei, Cidade de Wuhan, China, Dezembro de 2019.
As primeiras notícias, ainda em janeiro, de uma doença que criava problemas respiratórios, causada por um vírus, na china, do outro lado do mundo, não nos chamava tanta atenção. Continuávamos nossas vidas como se nada estivesse acontecendo, afinal, o que uma doença, há milhares de quilômetros de distância, tinha a ver comigo?
Passados cerca de cinco meses, essa pequena estrutura viral, com tamanho entre 100 e 120 nanômetros, só visível ao microscópio eletrônico, abalou fortemente todos os poderes do mundo material, desde as maiores potências mundiais, com seus sistemas financeiros, econômicos, seus poderes bélicos, científicos, seus sistemas de saúde, todos afetados, passando por países menos desenvolvidos ou muito pobres, atingindo os cinco continentes. Na sua face mais dramática, ceifando milhares de vidas e ameaçando outros milhões de seres humanos, com a perda do emprego e o fantasma da fome, com consequências econômicas nunca antes imaginadas. A Pandemia, no primeiro momento, nos deixou a todos atônitos, paralisados, perplexos, sem compreender as razões de tudo isso. Chegou para nós, é uma realidade, materializou-se a impotência humana, perdemos o nosso controle ilusório. Passados esses meses, ainda há muita neblina â nossa frente, mas já podemos ver um pouco mais do significado de tudo isso.
Para tentar entender o que aconteceu, podemos recorrer à Doutrina Espírita, no capítulo das leis naturais. A Lei de Destruição, onde o emérito codificador, Kardec, nos informa que os flagelos destruidores tem por finalidade nos fazer progredir mais depressa, visando a nossa regeneração moral do espirito eterno. Os encaramos como flagelos em razão dos prejuízos que nos causam no momento presente. Se pudéssemos olhar pela ótica da eternidade, nossa avaliação seria outra.
Aquilo que nos causa dificuldade, faz com que possamos usar nossa inteligência e todos os recursos internos e externos que possuímos, para resolver os nossos problemas, se não houver a demanda, não nos movimentamos. Quando nos movimentamos, aprendemos muito sobre nós, sobre os outros e sobre o mundo, acessando potenciais que não supúnhamos possuir.  Essa bagagem adquirida, é o que realmente tem valor e passa a nos pertencer, não é o que fazemos que faz tanta diferença, mas o aprendizado adquirido, que nos transforma do ponto de vista material e espiritual. O desenvolvimento do intelecto, material, melhora a nossa vida social, nos traz mais comodidade, melhora e desenvolve nossas ciências, a medicina, a produção de alimentos, e traz todas as benesses da vida contemporânea. É natural e perceptível quantas conquistas materiais importantes, da humanidade, ocorreram nos últimos 100 anos. A pergunta é, como estamos usando essas conquistas?
A vivência adquirida diante das dificuldades, nos faz avançar também do ponto de vista espiritual, causando nossa transformação moral, que é a capacidade de distinguir o bem do mal. Essa mudança, baseada em princípios universais como a fraternidade, a igualdade, liberdade, o respeito à individualidade, melhora nossas escolhas e cria valores que contribuem para melhorar nossos relacionamentos, nossos sentimentos, a coletividade, construindo um mundo melhor, onde percebo no outro um igual, com direito à liberdade de ser e existir. O desenvolvimento moral é mais lento, menos perceptivo a olhares apressados e ocorre posterior ao material. Esse é o objetivo maior, evoluir espiritualmente. “Assim caminha a humanidade com passos de formiga e sem vontade”, diz o poeta musical. 
Façamos uma análise realista de como estávamos vivendo esse mundo contemporâneo que propiciou o aparecimento da pandemia.
Vejamos, em que se baseia a nossa sociedade atual, no “ser” ou no “ter”? O que realmente tem valor para a maioria de nós?
Qual a razão de estarmos vivendo nesse planeta, nesse momento?
Como lidamos e nos relacionamos com os seres que estão à nossa volta?
Como estamos lidando com o meio ambiente e os recursos naturais que nos sustentam a vida?
Sem dúvida, estamos avançando moral e materialmente como humanidade mas, nossa sociedade está ainda baseada na acumulação do “ter” e do “poder”. O poder econômico, político, religioso, midiático, bélico, da informação, biológico e tantas outras formas de poder. O grande objetivo dos poderes, nesse momento, é ter controle sobre os outros, acumular posses e meios (objetivos e subjetivos) de constranger, de decidir sobre o que o mundo vai consumir, de que forma vamos viver a vida e de que forma a sociedade está estruturada. Fomos, às vezes inconscientemente, criando estruturas com a capacidade de dominar o pensamento, de criar sentimentos inferiores e influenciar as decisões alheias e construir vantagens e domínio para os detentores do poder, ou seja, nossa sociedade está baseada no atendimento dos desejos do EGO adoecido, distorcido, temporário e passageiro. O MEDO é usado como instrumento do controle e é muito perceptível nesse momento..
O objetivo da maioria, a qualquer custo, é estar no topo dessa sociedade, é o “parecer”, não é o “ser”. O EGO distorcido tem por finalidade acumular bens e valores passageiros, da transitoriedade, ele quer ser engrandecido, endeusado, aplaudido, reconhecido. Ele quer sempre estar no topo, ser o mais importante, ter o melhor carro, ter mais visibilidade nas redes sociais, ter mais “likes” nas suas publicações, precisa acreditar que ninguém pode estar acima dele, eis o ORGULHOSO, manifesto na vaidade.
O ególatra quer sempre ter razão, estar sempre certo, nunca reconhecer seu erro, pois isso seria um tipo de morte, o fim do “mundo do ego”. O Egoísta acredita que todas as suas necessidades devem ser atendidas primeiro do que os outros, o meu prato tem que ser o primeiro a estar cheio, depois os outros, se der. Todo o mundo tem que girar em torno de mim, tudo e todos devem me servir, atendendo meus desejos.
Tudo isso alimenta o individualismo e a competição desenfreada, estimulando cada um a olhar só para si, para o seu umbigo, estimulando o culto do “EU”.  Estamos vivendo o “Império do EU”. As nossas estruturas de ensino(escolas) e nosso modo de vida refletem esse diapasão do orgulho e do Ego, como forma de definir o sucesso e existem com o objetivo de construir consumidores e fornecer mão de obra para a continuidade desse modelo, da acumulação material, enquanto uns esbanjam, outros, não têm o que comer e nem onde morar. Acrescenta-se a isso um outra emoção: o MEDO. Medo de que o mundo não esteja a me servir, a meus pés, que eu não posso fraquejar, de que não dou conta, de que não consigo ser o melhor, medo de não estar sempre no topo e portanto não ter valor. Está montado o caldo emocional que sustenta essa “loucura” em que vivemos, o meu “SER INFERIOR”, a minha “Sombra”. Eis a base materialista das nossas motivações individuais que refletem e se sustentam na coletividade.
As nações mais poderosas, com suas lideranças baseadas no modelo antigo que está ruindo, da prepotência, da vaidade, do personalismo, da egolatria, da intolerância, do egocentrismo, do negacionismo da realidade e da ciência, não serão mais as mesmas. A máscara caiu e quebrou-se, não tem como ser recolocada do mesmo jeito, não será mais aceita para essa nova era, ficará patente a falsidade do discurso. A mentira, a hipocrisia e o engodo serão perceptíveis para os que quiserem ver.
Vejamos o nosso planeta, estão se exaurindo os recursos naturais, estamos consumindo
mais do que a natureza é capaz de renovar através dos seus mecanismos perfeitos de reciclagem. Estamos esgotando a água potável, aumentando a poluição do ar que respiramos, os ciclos das matas sendo destruídos, a fauna e a flora não conseguindo manter o seu equilíbrio, o clima entrando em colapso com o aquecimento global. O mesmo modelo irresponsável de produção e acúmulo desenfreado. É a manifestação do acumular inconsequente, sem olhar em volta, egocentrado. Esses meses onde diminuímos nossas atividades diárias, a natureza mostrou o seu poder de regeneração dos recursos naturais.
Essa busca desenfreada pelo que é passageiro, material, nos traz um profundo sentimento de vazio existencial, continua faltando algo, mesmo quando atingimos os aplausos humanos. A vida perde seu sentido de existir e a porta da auto aniquilação pelo suicídio, equivocadamente, passa a ser considerada. Temos hoje a mais alta taxa de desesperança, de depressão e suicídio na história da humanidade. Um suicídio acontece a cada quarenta segundos no mundo. Algo não vai bem nesse reino da ilusão.
 Individual e coletivamente, esse modelo baseado no tripé: Ego distorcido, Orgulho e Medo precisa ser renovado. Chegou o tempo onde esses pilares estão sendo dilapidados, descontruídos, eis o pequeno vírus a nos mostrar um novo momento. É o momento da desestruturação, a fase da transição coletiva, que se dará a partir do indivíduo, que cada um vai fazer de forma diferente. Estamos todos atravessando um deserto, como Moisés guiou o povo hebreu, saindo do cativeiro no Egito, durante quarenta anos, em busca da terra prometida e um novo modo de vida. Precisava que uma geração pudesse passar, perdendo os vícios do cativeiro, do culto ao bezerro de ouro, do jeito velho de ser e agir, para abrir um novo ciclo.
Podemos fazer um paralelo com esses dias de isolamento, voltar para dentro de nós e reconhecer que, do jeito que estava, não dá mais para seguir, precisamos sair do nosso cativeiro material. Mesmo não sabendo o que fazer, para onde seguir, aceitar que você não sabe o caminho e ninguém sabe. Vamos nos permitir ficar nesse vazio. Precisamos perder aquela falsa sensação de poder do ego, de onipresença, de indestrutividade, onde o velho padrão de resposta pronta, agora não funciona mais, nem no coletivo, nem no individual. Nesse momento, as ferramentas e recursos que estávamos utilizando, não estão mais disponíveis, agora os recursos terão que ser encontrados dentro de nós, a solução do outro não serve mais para mim, você terá que viver o momento e construir a sua individuação, viver a sua singularidade de filho de Deus, terá que ser baseado na vida real, na intuição, nos bons sentimentos que vibram dentro de nós, na solidariedade, na fraternidade, na mansuetude, na humildade, na auto responsabilidade. Teremos que olhar para nós e para os outros, na coletividade, na soma dos esforços, do companheirismo, do equilíbrio, do bom senso, da tolerância, ou seja, nos valores da vida eterna, nos valores da espiritualidade superior.
O convite da espiritualidade é para esvaziar a mente imatura, abrir o coração para o que existe de melhor em nós, no campo do sentimento. A sua mente limitada não será mais capaz de resolver esses problemas, pois o edifício da divisão interior precisa ruir, você não ficará mais separado dos seus sentimentos. As paredes externas da separatividade foram abaladas, percebemos que estamos todos interligados e o que afeta um, afeta a todos. Você terá que convidar o seu “Ser Superior” para atuar. Controle a sua mente acelerada e permita que o Deus de dentro possa falar, manifestando a sua luz. Muitos ainda recalcitram contra o que há, não adianta negar com teorias conspiracionistas, as mais estapafúrdias, desconexas da realidade, procurando culpados, acreditando que você não tem responsabilidade com o que está acontecendo, você contribuiu e negando, continua criando separação e dor. Nessa volta para casa, entenda que o poder vem de Deus, aceite as novas condições, “não recalcitres contra os aguilhões”, disse Jesus a Saulo na entrada de Damasco. Faça a verdadeira entrega a Deus na sua vida, solte-se, entregue-se e uma nova identidade, uma nova vida surgirá.
Apesar da nossa condição temporária, ser a de espíritos encarnados, em evolução, ainda imperfeitos, a perfeição é o fim último de todos os espíritos, mas cada um decidirá como quer caminhar, em qual momento e com que velocidade quer evoluir. Para que lado você quer contribuir? A decisão é sua. Assim como criamos essa pandemia a partir dos nossos sentimentos inferiores, do egoísmo, do orgulho e ligados e estimulados pelo medo, podemos criar um novo mundo exterior, a partir da nossa bondade interior, somos co-criadores da nossa própria experiência. Aquele estado que existe dentro, positivo ou negativo, virá para fora.
Aproveite essa parada obrigatória, saia da vontade de duelar, desista de ter razão, todo conflito que você faz para fora, contra alguém, ele é primeiro com você mesmo, é uma parte sua que você não gosta, mas não quer reconhecer e aponta para o outro. Pare com os ataques das redes sociais e perceba onde você pode ser melhor, não perfeito, apenas a sua melhor versão para esse momento, para o agora. Alinhe o seu EGO ao seu Ser Superior. Crie um “Eu Observador” que possa ver você atuando, entrando em contato com seus sentimentos e descubra suas motivações em cada ação. Não se julgue, não se condene, apenas aceite a sua condição momentânea, isso trará mais leveza, mais alegria para viver o momento presente, pois a vida é sempre um presente. Dê um Bem Vindo a 2020 em pleno junho. A festa da transformação está só começando.

João Rocha é odontólogo, tem formação em Pathwork, e é trabalhador da Comunidade Espírita Ramatís em Goiânia